Cultura

Especial- Feira lembra Olney São Paulo

Nascido em Riachão do Jacuipe, o cineasta Olney São Paulo será homenageado nesta sexta-feira (7) in memoriam em Ferira de Santana, na sede da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL). A solenidade contará com as presenças dos familiares, artistas, jornalistas e de vários cineastas baianos.

O legado artístico do cineasta Olney São Paulo, é importante e significativo. Tanto que é objeto de várias pesquisas. O Tributo a Olney São Paulo, nesta sexta-feira (7), às 20 horas, na Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), é uma forma de manter viva na lembrança a sua obra em Feira de Santana, terra onde viveu parte de sua vida.

Nascido em Riachão do Jacuipe, Olney São Paulo foi um artista que não se expressou tão somente no cinema, mas também no teatro e na literatura, com contos e romance. Ainda atuou na imprensa, como na Revista “Sertão”, no jornal “Folha do Norte”, contribuindo para o debate cultural.

Nesta homenagem in memoriam, promovida pela Prefeitura, através da Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer e da Fundação Cultural Egberto Costa, em parceria com a Fundação Senhor dos Passos, através do Núcleo de Preservação da Memória Feirense, vão ser exibidos três curtas-metragens. Os nomes são surpresa para manter o clima de expectativa, realizados entre 1970 e 1976, quando já estava no Rio de Janeiro, mas realizados em Feira de Santana e região.

Os filmes de Olney São Paulo são marcados pela reflexão da cultura regional, mas universal, com imagens preciosas do sertão. “A visão de três dos filmes de Olney vai oferecer para quem conhece ou não uma cinematografia forte e telúrica, que revela como ele era um artista inquieto, que fazia filmes à procura de contribuir por uma sociedade mais justa”, comenta o jornalista Dimas Oliveira, que coordena a homenagem.

Programação

 

Na programação, consta a participação dos filhos Ilya São Paulo, que é ator e vem do Rio de Janeiro para a homenagem, e Olney São Paulo Júnior, que é músico e vem de Salvador. As homenagens constarão também de exposição de fotografias, exibição de filmes do cineasta, painel com Tuna Espinheira (Trajetória Histórica do Cineasta); José Umberto, Robinson Roberto e Roque Araújo (Importância de Olney São Paulo); e André Setaro (Olney em Visão Crítica).

“Em um país que despreza a memória cultural e histórica como o Brasil, onde reina o menosprezo, trata-se de um marco alentador”, considera Carlos Brito, da Fundação Senhor dos Passos. “O propósito é que não se perca um ícone da memória da cidade e que sua obra seja discutida por especialistas”, afirma Dimas Oliveira.

Para Dimas, o objetivo é “manter viva na lembrança de Feira de Santana a obra de Olney São Paulo, bem como o fomento da cultura cinematográfica, através da pesquisa, do estudo, do intercâmbio e a preservação da memória”.

Colaboração de Evandro Matos

Garoto de Riachão do Jacuipe impressionou Antônio Balbino…

Ele era um menino tão miúdo que a professora teve que segurá-lo nos braços enquanto declamava uma poesia de Olavo Bilac para o governador Antônio Balbino. Riachão do Jacuipe estava em festa.

O governador em pessoa tinha ido inaugurar uma estrada. Diante de tão suntuosa visita, a comunidade se organizou para realizar uma programação à altura do ilustre visitante. Aos 5 anos, Olney foi o escolhido da professora Carmem Mascarenhas para declamar a poesia Pátria. Esperto, ele não errou ou esqueceu nenhum trecho, deixando o governador boquiaberto ao ver tamanha desenvoltura em um garoto com tão pouca idade. Sem disfarçar o encantamento, Antônio Balbino não poupou elogios e beijou as mãos do pequeno.

Provavelmente não passava pela cabeça do chefe de estado que, quando virasse homem, aquele garoto seria um famoso cineasta e assinaria um livro digno de elogios até do presidente da república, Juscelino Kubitschek. “Um bom livro dispensa crítica ou comentário e impõe-se pela sua força. Este, o caso de Antevéspera e o canto do sol. Comecei a folheá-lo, a atenção foi fixando-se e só pude largá-lo quando cheguei ao fim…”, escreveria o ex-presidente, em carta datada do dia 21 de agosto de 1973.

Olney podia ser considerado uma espécie de garoto precoce. Aprendeu a ler cedo e aos 7 anos começou a freqüentar as aulas de datilografia na Escola São João Evangelista. Ficou tão craque na máquina de escrever que passou a ajudar o avô, Augusto Asclepíades de Oliveira, que era tabelião no cartório. “Era um menino de ouro, bem aplicado e comportado. Aos 5 anos, podia dar qualquer livro que ele lia”, diz a mãe, dona Rosália Oliveira São Paulo, 93 anos, apontando o certificado do curso já amarelado, em uma moldura pendurada na parede da sala. Décadas se passaram, mas tanto as imagens do homem como as do garoto Olney continuam fresquinhas nas lembranças afetivas da mãe. Pegar uma pequena caderneta que guarda com esmero desde 1936 e ler o horário do nascimento, dia de batizado e outros detalhes que ela própria relatou da infância do filho é como viajar no tempo e reviver todas as emoções.

Apesar da idade avançada, relata com o frescor de um fato que acabara de ocorrer o dia em que, acidentalmente, o filho foi baleado por um amigo. “Soube da notícia e saí tão avexada que nem tive tempo de me arrumar. Ele tinha acabado de sair da mesa de cirurgia quando cheguei ao hospital. Assim que me viu, disse: ‘Mãe, a senhora não tem vergonha de vir ao hospital igual uma doida não?”, conta, lembrando que o cabelo estava completamente assanhado e que a bala atingira o pulmão, ficando a 1cm do coração. Entre os filhos, nunca houve segredos de que ela sonhava que seguissem os passos do irmão. Tinha as melhores notas na escola, no concurso do banco ficou com o primeiro lugar e era ele quem desde os 18 anos a ajudava no sustento da prole.

Enquanto dona Zali era uma figura extremamente presente, ao pai, a vida não deu o direito de acompanhar a paixão do filho pelo cinema. Quando o ferreiro Joel morreu aos 33 anos de cirrose hepática, Olney era um menino de 7 anos que sonhava com a primeira comunhão. Com a morte prematura do marido e cinco filhos para criar, ela decidiu se mudar para Feira de Santana. Ao concluir o segundo grau, o primogênito arrumou as malas e comunicou à mãe que voltaria para Riachão do Jacuipe porque em Feira não teria mais o que fazer. Ciente do carinho que o diretor e proprietário do Ginásio Santanópolis, Áureo Filho, tinha por Olney, dona Zali fez um bilhete comunicando a loucura que o seu menino havia cometido.

De imediato veio a resposta: “Diga a ele que volte que o emprego está garantido aqui no colégio”. Seria lá que tempos depois ele conheceria a outra eterna paixão de sua vida e futura mãe dos quatros filhos, Maria Augusta. Ele era professor de matemática no curso de contabilidade e ela, aluna do curso pedagógico.

“Durante um ano e alguns meses fomos somente amigos, depois começamos a namorar e nos casamos”, conta Maria Augusta, que vive hoje nos Estados Unidos. Àquela altura, o cinema já povoava os sonhos de Olney. Desde pequeno falava de cinema. Depois passou a comprar livros e revistas sobre o tema. As cenas e falas dos filmes de caubói que tanto assistia insistiam em povoar o imaginário do menino Olney. Nessas horas, em fugazes apresentações em casa, vestia uma camisa de mangas compridas, calça, chapéu de feltro, cinto de caubói, botas e armas de brinquedo em punho. Ele se caracterizava com tanto esmero que parecia um personagem extraído de um set de filmagem de western.

Idéias ele tinha de sobra, bastava saber como concretizar todos os planos e roteiros que iam sendo esboçados em sua cabeça. Obstinação também não lhe faltava. A mesma inquietude e persistência com que conseguira convencer o padre de Riachão a autorizá-lo a fazer a primeira comunhão aos 7 anos, usaria mais tarde para concretizar o sonho de ser cineasta. De tanto freqüentar o Cine Santana, o Íris, o Timbira, o Madri e o Santanópolis virou figurinha conhecida dos porteiros e funcionários da bilheteria. “Íamos tanto ao cinema que éramos considerados em Feira de Santana como doutores na área. Lembro que na época o bilhete era dois contos. Fui eu que apresentei os filmes de caubói a ele. O preferido de Olney era Cidadão Kane”, recorda um dos melhores amigos, o escritor Fernando Ramos.

Em um caderno ele anotava o nome dos filmes vistos, ficha técnica e os comentava. Não tardou para que passasse a publicar as críticas assinando colunas em jornais locais e também sob o comando do Cinerama, um programa na Rádio Cultura. Mas ainda era pouco. Precisava colocar a mão na câmera, olhar por diferentes planos, e dar vida às suas histórias. Enquanto as portas do mundo do cinema não se abriam, dava vida aos seus personagens em contos. “Cheguei a achar que era contista quando alguns dos meus trabalhos foram elogiados por Aurélio Buarque de Holanda e Paulo Rónai na revista A Cigarra”, comentou Olney em entrevista à Revista da Bahia.

Novo cinema

 

No escuro do cinema, paralelo às cenas, Olney pensava em roteiros e vislumbrava os personagens que dariam vida às suas histórias. Se tivesse uma câmera na mão, provavelmente, em cada canto da cidade, ele arranjaria um novo roteiro para filmar. Ao assistir a obras como as de Visconti, de Sica e Rosselini, passou a perceber a possibilidade de fazer filmes baratos, nas ruas, longe dos grandes estúdios, descartando a obrigatoriedade dos atores profissionais, mas sem abrir mão de muita criatividade. Era esse o embrião de idéias que norteariam o cinema novo. O empurrãozinho que faltava para Olney começar foi dado com a passagem do cineasta carioca, Alex Viany, por Feira de Santana.

Ele desembarcou na cidade em 1955 para gravar o episódio Ana, do filme internacional A Rosa dos Ventos (Die Windrose). A chegada da equipe de filmagem com Vanja Orico recém-saída do sucesso de O cangaceiro causou grande rebuliço em Feira de Santana, que estava habituada com as levas de retirantes, com os caminhões, com as multidões de feirantes que acorriam à fabulosa feira semanal. “Nós éramos algo de novo – algo que os poucos cinéfilos locais receberam com evidente alegria. Dentre estes, o mais apaixonado era um rapaz que ainda não fizera 19 anos e que já então procurava uma definição artística – ou mais precisamente cinematográfica – na imprensa e no rádio”, escreve Viany no prefácio do livro Antevéspera e o Canto do sol, que Olney publicaria anos mais tarde.

Extasiado com a oportunidade que estava tendo de vivenciar de perto uma filmagem e, ao mesmo tempo, um tanto calado, Olney foi se incorporando à equipe. “Infelizmente para ele – e para nós, também – sua imensa curiosidade era quase sempre vencida por uma timidez ainda maior. Mas, de qualquer forma, nossa permanência em Feira e cercanias, certamente contribuiu para convencê-lo de que ele estava no caminho certo”, acrescenta o cineasta Alex Viany. Não só o convenceu de que o cinema estava impregnado nas suas veias como o encorajou a realizar a primeira empreitada na área. “A teoria já estava digerida, John Ford já havia lhe mostrado a ‘força criadora’, Vittorio de Sica já lhe havia revelado o ‘lirismo’, já não havia outro caminho possível para a sua ânsia a não ser a prática”, avalia o cineasta Orlando Senna, em artigo publicado sobre Olney na Revista Néon.

Não foi preciso nenhuma superprodução. O cenário era a feira livre da cidade e no elenco e produção, amigos e irmãos. Coube a ele os papéis de roteirista, diretor, ator, figurinista, cenógrafo e continuísta. Quando recebia das mãos de Olney o roteiro para avaliar, Fernando Ramos sequer desconfiava das intenções do amigo de escalá-lo para o papel principal. E foi com a mesma naturalidade com que novos projetos iam brotando em sua cabeça que ele fez o ultimato ao amigo: “O protagonista será você”. Incrédulo com o que ouvia, Ramos o indagou: “Eu vou ser o ator? Nunca fui ator em minha vida”, recorda. Com a mesma serenidade com que encarava tudo na vida, Olney o convenceu, alegando que não havia ninguém mais preparado para interpretar o papel do que ele próprio, que já havia lido o roteiro incansavelmente.

Nascia ali um grande cineasta. “Olney participava do grupo de artistas engajados. Ele queria dar uma contribuição social de crítico da realidade brasileira e também exprimir coisas líricas”, diz o amigo e cineasta Tuna Espinheira. É sob o mesmo olhar de Tuna que os amigos, familiares e contemporâneos do meio o traduzem: um homem que, mais do que lotar as salas de cinema, estava preocupado em conseguir mostrar através da sétima arte a realidade brasileira nua e crua.

Fonte: Correio da Bahia

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