História

Especial – Roteiro de Lampião é feito por pesquisadores de todo o Brasil

O Seminário "Cariri Cangaço" será encerrado amanhã, com uma palestra no salão paróquia de Missão Velha, seguida por um almoço de confraternização entre os escritores, pesquisadores, professores e ensaístas que participaram do evento.

Foi uma semana de estudos, debates e polêmicas sobre Lampião e seus cangaceiros. Os pesquisadores definiram o evento como o maior acontecimento do gênero realizado no Nordeste. “A história do cangaço foi dissecada em todos os seus aspectos pelos mais renomados estudiosos do assunto no Brasil”, disse o coordenador do encontro, Manoel Severo.

Uma das vertentes importantes do seminário foi a inclusão do Cariri no “roteiro turístico” do cangaço. Participantes do evento percorreram os caminhos trilhados por Lampião e seu bando na região. Os pesquisadores seguiram as pegadas de Lampião apontadas pelo escritor Napoleão Tavares Neves, que lançou o livro “Cariri, Cangaço, Coiteiros e Adjacências”, revelando fatos que foram apagados pela poeira do tempo e rastejando as pegadas de Lampião, quando da sua visita à Juazeiro do Norte à procura das bênçãos do Padre Cícero. Um dos locais que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a Fazenda Piçarra, no município de Porteiras, pertencente a Antônio Teixeira Leite, mais conhecido como “Antonio da Piçarra”, que foi amigo de Lampião.

Ali, na noite do dia 13 de março de 1928, foi baleado Sabino Gomes, um dos mais valentes cangaceiros do bando. Socorrido pelos companheiros, Sabino foi arrastado dentro da mata. Não suportou os ferimentos e pediu para que um dos cangaceiros o matasse com um tiro da própria pistola no ouvido.

Os detalhes deste episódio foram contados pelo neto de Antônio da Piçarra, Wilson Santana, que ainda hoje mora no local. Na época, o grupo de Lampião foi cercado pela volante do tenente Arlindo Rocha, conhecido pelos cangaceiros como “Arlindo Queixo Quebrado”. Chovia muito. O relâmpago cortava a amplidão iluminando a caatinga. O cangaceiro Sabino Gomes subiu uma cerca com o objetivo de se aproximar de Lampião, que estava no pé de um serrote, a 50 metros de distância.

Na subida da cerca, em meio à chuva, trovoada e relâmpago, Sabino foi alvejada no estômago. Daí em frente, foram balas para todas as direções. Os cangaceiros conseguiram furar o cerco, levando Sabino que, ao longo do percurso, implorava para os companheiros: “Não me deixe vivo para ficar nas mãos dos macacos!”. A princípio ninguém atendeu ao pedido de Sabino. Foi aí, segundo o relato de Wilson, com base em informações do cangaceiro Oliveira, que o integrante do bando, conhecido como “Mergulhão”, tomou a decisão, dizendo: “Se é para o bem do senhor, para acabar com este sofrimento, eu faço o serviço”. Pediu para Sabino botar um lenço nos olhos e o matou com a própria pistola da vítima.

A Fazenda Piçarra, de acordo com o historiador Napoleão Neves, era o entreposto dos cangaceiros no caminho para Juazeiro do Norte. Em seu livro, Napoleão traçou o roteiro do “Rei do Cangaço”, em 1926, para Juazeiro, onde ele recebeu a patente de capitão. No caminho para Juazeiro, depois de se hospedarem na Piçarra, os cangaceiros seguiram para Porteiras, onde foram recebidos como heróis. Visitaram a Delegacia de Polícia, jantaram e dormiram. No outro dia, subiram a serra e foram recepcionados com um banquete na casa do coronel Santana, no alto da Serra do Araripe. No percurso, trocaram os animais de montaria cansados por uma tropa de burros do coronel Né Rozendo.

No paradisíaco sítio do coronel Santana, descansaram e tomaram banho na fonte da Pendência. O mecânico Antônio Lenard foi chamado para consertar uma pistola de Lampião. O trabalho foi pago com uma cota feita entre os presentes, que resultou numa quantia com a qual o mecânico comprou o primeiro torno da atual indústria Lenard.

Em Barbalha, Lampião recebeu ramalhete de flores, foi recebido pelas autoridades, fez compra no comércio, onde também foi contrariado. Napoleão conta que dois cangaceiros entraram na loja de Zuca Sampaio e pediram para levar tecidos de graça. Caso o dono não concordasse, levariam mesmo assim.


Cena da morte de cangaceiro é revivida

Wilson Santana, neto de Antônio Teixeira Leite, proprietário da Fazenda Piçarra, onde o cangaceiro Sabino Gomes foi morto, ainda traz viva na memória a história contada pelo avô, que na época do cangaço foi “coiteiro” (protetor) de Lampião. Durante a visita dos pesquisadores à fazenda, como parte da programação do Cariri Cangaço, Wilson fez questão de subir na cerca de vara, para demonstrar como foi a cena da morte do cangaceiro Sabino Gomes. Este e outros fatos foram revividos pelos participantes do seminário.

Conforme rememoraram, Virgulino Ferreira chegou à Juazeiro do Norte no dia 4 de março de 1926, atendendo ao chamado de Floro Bartolomeu, que não se encontrava mais por lá. Doente, o deputado federal viajara para o Rio de Janeiro, onde acabaria morrendo. Padre Cícero se viu então com um problema nas mãos: recepcionar o famoso bandido e seus companheiros na cidade e, mais ainda, cumprir o que havia sido combinado entre Lampião e o deputado, com a devida aprovação do Governo Federal: o cangaceiro deveria receber dinheiro, armas e a patente de capitão do então Batalhão Patriótico.

Lampião e outros 49 cangaceiros ocuparam uma casa próxima à fazenda de Floro, nas imediações da cidade, e, em seguida, alojaram-se em Juazeiro do Norte, no sobrado onde residia João Mendes de Oliveira, conhecido poeta popular da região. Foi lá que, da janela, Virgulino atirou moedas ao povo e onde, durante a madrugada, Padre Cícero encontrou o bando. Os cangaceiros, ajoelhados em deferência ao sacerdote, teriam ouvido o padre tentar convencer seu líder a largar o cangaço logo após voltasse da campanha contra a Coluna Prestes.

Mandou-se então chamar o único funcionário federal disponível na cidade, o agrônomo Pedro de Albuquerque Uchoa, para redigir um documento que, supostamente, garantiria salvo-conduto ao bando pelos sertões e, principalmente, concedia a prometida patente. O papel, como Lampião viria a descobrir tão logo saiu da cidade, não tinha qualquer valor legal, o que não o impediu de assinar, daí por diante, “Capitão Virgulino”.

Ciente da desfeita, o cangaceiro não se preocupou mais em dar combate à Coluna Prestes. Já obtivera dinheiro e armas em número suficiente para seguir seu caminho, agora ostentando, orgulhoso, a falsa patente militar. Mais tarde, o agrônomo Uchoa justificou seu papel no episódio: “diante de Lampião, assinaria qualquer coisa. Até a destituição do presidente da República”, teria afirmado.

No rastro dos cangaceiros, apontado por Napoleão Tavares, os participantes conheceram, além dos caminhos e localidades visitadas por cangaceiros, outros pontos que fazem partem do corredor turístico do Cariri, como a cachoeira de Missão Velha, as fontes do Caldas, a estátua do Horto em Juazeiro, a Floresta Nacional do Araripe, a Casa Grande de Nova Olinda e o Memorial Patativa do Assaré. A secretária de Cultura do Crato, Danielle Esmeraldo, anunciou a realização de outros eventos de resgate da historia regional.

Fonte: Diário do Nordeste

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