História

As trilhas de Euclides da Cunha revisitadas

O fotógrafo Araquém Alcântara prepara livro que registra mudanças na paisagem de Canudos.

Muitas das grandes ruínas que hoje decoram os desertos e florestas da Terra, diz o jornalista e historiador inglês Ronald Wright, “são monumentos à armadilha do progresso”. Olhando a foto acima, de autoria do fotógrafo catarinense Araquém Alcântara, de 57 anos, a frase de Wright torna-se ainda mais assustadora por essa ruína estar bem diante dos nossos olhos, uma lápide da civilização que um dia se chamou nordestina. O sertão não virou mar, mas está em vias de se transformar num imenso deserto em função da dinâmica cultural que tem aproximado cada vez mais a erosão de suas terras à aridez que consome a urbe. Ainda assim, em alguns pontos isolados, a beleza arcaica de um mundo anterior a essa queda pode ser vista, como atestam outras 90 imagens do fotógrafo para o livro de fotografias Sertão Sem Fim, patrocinado pela Qualicorp e que será lançado em dezembro com apoio do Estado.

Decidido a registrar as transformações do cenário onde se deu a tragédia de Canudos, contada por Euclides da Cunha no clássico Os Sertões (1902), cujo ponto de partida está numa série de reportagens escrita para o Estado, Araquém, autor do livro de fotografias sobre natureza best-seller no País, Terra Brasil (Ed. DBA/Melhoramentos, 1997, 80 mil exemplares vendidos), peregrinou por oito Estados brasileiros em busca dos vestígios de um mundo perdido no tempo. Ficou impressionado com o que viu, quase tanto como Euclides, que identificou a origem da tragédia sertaneja na questão da terra – da violência do latifúndio ao forçado êxodo a que estão condenados muitos milhares de brasileiros, isolados pela seca, pela ignorância e pela indiferença da civilização urbana, orgulhosa de seu progresso e esquecida de que as cidades do passado sucumbiram justamente por causa dele, não suportando a carga ambiental.

 No sertão, Araquém descobriu que as vestes são uma espécie de segunda pele contra a natureza hostil que expulsa o homem, protegido no gibão de couro de bode curtido e apertado no colete como um enforcado à beira da apoplexia. Guerreiros cansados, envergam suas armaduras não como antigamente, observa o fotógrafo, “mas como uma forma de dizer que essa ritualística tenta preservar uma tradição condenada”. Hoje, os vaqueiros usam motocicletas para conduzir o gado. Vilarejos próximos das cidades estão contaminados por signos de consumo, poluindo platibandas com cartazes publicitários. Sucumbiram, enfim, à uniformização cultural imposta pelo progresso, que exige que todos falem a mesma língua e tenham o mesmo comportamento.

 “Apesar disso, a religiosidade do sertanejo persiste”, observa Araquém. Ele registrou dois penitentes que fazem lembrar a via-crúcis do humilde Zé do Burro em O Pagador de Promessas. Na trama da peça que lhe deu origem e no premiado filme homônimo, Zé do Burro caminha 42 quilômetros com uma cruz nos ombros, do sertão baiano a Salvador, para cumprir uma promessa a Santa Bárbara. Já um dos penitentes de Araquém, Pedro da Cruz, saiu de Caruaru curado de uma trombose. O fotógrafo encontrou-o em Bom Jesus da Lapa, caminhando 10 quilômetros por dia e ajudado por outro peregrino em sua missão de carregar a cruz. Já em Itiúba, na Bahia, conheceu um novo Antônio Conselheiro, Adebaldo de Jesus, que, marcado por uma visão epifânica, saiu pela caatinga pregando o evangelho com um coração eucarístico preso ao peito.

Leia mais no Carderno2 do Estadão.

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