Cultura

Outubro se vai com uma homenagem a Carlos Drummond de Andrade

Nascido na cidade de ltabira (MG) em 31 de outubro de 1902, o poeta Carlos Drummond de Andrade desde cedo demonstrou habilidade para lidar com a palavra. Com isso se tornou o mais consagrado dos poetas do século XX da literatura brasileira. O Portal lembra a data do seu nascimento, com referência também a Vinicius de Morais, também nascido em outubro.

Apesar de diplomado pela Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte, Drummond faz da literatura sua profissão. Em 1925 funda “A Revista”, que se torna o porta-voz do modernismo mineiro.

Ao longo de sua vida, Drummond recebe diversos prêmios por sua obra, destacando-se o Estácio de Sá (Jornalismo), o Fernando Chinaglia, da União Brasileira de Escritores, o Morgado Mateus (Portugal-poesia) e o Padre Ventura do Círculo Independente de Críticos Teatrais. Colaborador de inúmeros jornais e revistas, participa de antologias e tem sua obra traduzida em vários países. Participa de uma série de programas na Rádio Ministério da Educação de entrevistas e do programa “Quadrante”, nesta mesma rádio.

Fazendo uma poesia que “articula um protótipo do mundo moderno – o gauche” (Affonso Romano de Sant’Anna), esse admirável “anjo torto” espelha em sua obra o embate que permeia toda a sua vida: de um lado o desejo de mudanças político-sociais, de outro, a simpatia por valores da tradição.

Dentro deste embate, o poeta vive com dilaceramento e também com distanciamento a relação de suas origens mineiras e o mundo. Buscando refletir o seu tempo presente sem abandonar o contexto maior da humanidade, Drummond torna-se um dos maiores e inesquecíveis poetas do Brasil.

Seu falecimento ocorreu na cidade do Rio de Janeiro – RJ, em 17 de agosto de 1987.  Abaixo, o poema “José”, talvez o que mais simboliza o seu talento e a sua rica obra.

 

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,

seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

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