Cultura

História – “É uma rua com casinhas bem juntinhas, uma colada na outra…”

Cafetões, freqüentadores de bordéis, antigas prostitutas e moradores da comunidade. Estes são os protagonistas do documentário “Rua do Fogo – Memórias do Baixo Meretrício, produzido pelas cineastas e estudantes de jornalismo da Universidade do Estado da Bahia Kall Britto e Laura Ferreira, que será apresentado no III Encontro de Cinema Negro Brasil/África e Américas, que acontece de 9 a 19 de novembro no Rio de Janeiro (RJ).

O curta-metragem de 25 minutos, lançado dia 3 de outubro na própria Rua do Fogo, bairro Alto do Cruzeiro em Riachão do Jacuípe, conta como os bordéis dinamizavam a cultura e a sociedade jacuipense nas décadas de 40 e 50. Laura Ferreira, em entrevista, conta como foi o processo de produção do vídeo, fala de prostituição e preconceito e de histórias e mudanças na Rua do Fogo ao longo do tempo.

Agência MultiCiência: Como nasceu a idéia de fazer um vídeo sobre a Rua do Fogo?

Laura Ferreira: Eu já tinha esse desejo, pois freqüento a Rua do Fogo desde criança. Embora nunca tenha morado lá, tenho familiares: meu avô, alguns tios. Desde pequena ia com minha mãe aos fins de semana. Fui crescendo e percebendo um lugar bem místico, bem diferente. O meretrício lá em baixo e lembro que minha mãe dizia assim, “olhe, só brinque até aqui, não desça porque ali só tem cabaré”. Então, fui fomentando essas coisas em minha cabeça. Depois, li um livro, A louvação das prostitutas de Riachão do Jacuípe ao glorioso São Roque, de Nete Benevides. O foco do livro é a lavagem que as mulheres faziam e ainda fazem. Hoje, a manifestação está mais fraca por falta de apoio para dar segmento, mas ainda existe. No livro, embora ela fale da lavagem, fala do contexto da Rua do Fogo e das pessoas, as primeiras donas de cabaré, os cafetões, enfim, eu achei encantador. Ainda criança acompanhei o período de declínio dos cabarés, mas que ainda estão presentes na memória da cidade. De férias em Riachão, fiz umas imagens lá e colhi alguns depoimentos de moradores. Quando retornei para Juazeiro mostrei para Kátia e ela achou bacana, e pensamos em fazer um doc. É uma produção minha e de Kátia.

AM: Gostaria que descrevesse a Rua do Fogo.

LF: É uma rua estreita que vai se enlarguecendo, com casinhas bem juntinhas, uma colada na outra. Um bairro humilde, constituído de moradores de baixa renda, descendentes das fateiras. A afrodescendência é muito marcante. Tem também o rio Jacuípe, que corta toda a Rua e boa parte da cidade. Na beira do rio, as antigas profissionais do sexo criavam seus filhos, tratavam os fatos de boi, pescavam. A Rua do Fogo gerava a economia da cidade e a prostituição era só uma conseqüência. Lá, tinha fábrica de balas, chumbaria, batedeiras de sal, olarias na beira do rio, tudo na Rua do Fogo ou adjacências. Os antigos bordéis deram lugar a casas comerciais e a igrejas evangélicas. O nome fogo, no livro de Nete, explica que, nos anos 40, teve um incêndio na Petrobrás em Salvador (BA) e aí eles associavam, “essa mulher tem um fogo, o fogo da Petrobrás”, então ficou Rua do Fogo. É até comum em outras cidades que tem um meretrício a rua ser chamada de Rua do Fogo.

AM: Como era a vida noturna em Riachão do Jacuípe?

LF: Naquela época, a vida noturna era somente na Rua do Fogo. Doutores, filhos da elite de Riachão que estudavam em Salvador, iam para Riachão no fim de semana curtir na Rua do Fogo. O Centro, a rua de Cima, como Nete fala no livro, era da elite. E lá, tinha horário para dormir, acordar, e não podia ter barulho, por isso as mulheres do baixo meretrício eram impedidas de subir. Na época, tinha um sargento que ficava na vigília e quando elas ultrapassavam… “Ó, você não pode, você tem que descer”. E aí elas tinham um amigo de confiança delas, uma espécie de cafetão, que combinava os encontros, e ia comprar remédio em farmácia, botar e pegar carta em correio, porque elas não podiam ter esse acesso. Só as mais ousadas como Cheirinho, segundo seu próprio depoimento, é que enfrentava e subia. A prostituição em casa noturna até hoje é marcada pela exploração. Elas falam que, não ganhavam bem, eram exploradas e que, às vezes ficavam endividadas, pois davam todo dinheiro para os cafetões e por isso não podiam sair da vida.

AM: O que mudou do que era a Rua do Fogo antes para hoje?

LF: Os depoentes deixam bem claro no vídeo que a Rua do Fogo não é mais a mesma, que o meretrício praticamente acabou. Não é o meretrício de antigamente, aquela agitação, um bordel colado no outro, profissionalizado mesmo, mulheres de fora atraídas. Hoje é outra configuração. São mulheres de Riachão mesmo, a maioria casada, e separada de marido, que aí fazem programas. Hoje, nem chamam mais de bordel, nem de casa noturna, porque elas não dormem e vivem lá, não tem uma relação de meretrício. O que tem lá são mulheres que vão durante o dia, que elas chamam de ponto de encontro ou de reservado, um bar reservado, ou seja, aquele que tem um quartinho no fundo. Uma das depoentes, que ainda trabalha com bar, disse que deixa praticamente os quartos fechados e não tem mais aquela efervescência, as mulheres não moram mais nessas residências. É outra Rua do Fogo. Embora fosse agitado, agoniado, segundo os depoentes, não tinha violência. Hoje eles falam que, por conta das drogas, eles não têm mais aquela tranqüilidade de deixar a porta aberta, de dormir com a janela aberta até mais tarde, que é comum em cidade interiorana como Riachão, no calor, enfim. A droga é uma das questões que eles mais tocam quando se fala da rua hoje.

AM: Como é a relação da Rua do Fogo com a comunidade jacuipense hoje?

LF: Eu diria que não há relação, vejo o bairro como um todo marginalizado pelo poder público, as pessoas que passaram a freqüentá-lo foram obrigadas a isso, pois muitos cabarés viraram casas comerciais, mas é uma relação restrita a isso, à compra e vendas. Antigamente, quando o cortejo da procissão da igreja católica tinha que passar pelo Alto do Cruzeiro, o padre passava, mas dizia “quando estivermos passando naquele ambiente, virem a cara para o lado esquerdo ou então olhem para o céu”. Minha mãe e outras pessoas mais antigas contam isso. Hoje nem o cortejo passa mais na Rua do Fogo.

Por Naiara Soares, texto e foto

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