Cultura

Memória negra: ABI-Bahia exibe filme sobre Abdias Nascimento

Em comemoração ao mês da Consciência Negra, a Associação Bahiana de Imprensa (ABI) recebeu na Sala de Exibição Cinematográfica Roberto Pires uma sessão especial do filme Abdias Nascimento Memória Negra, um documentário dirigido pelo cineasta baiano Antônio Olavo. A obra exibida nesta quinta-feira (23), às 19h, conta a trajetória desse ícone da cultura negra, cuja obra e atuação política ao longo do século XX são essenciais para a compreensão do papel do negro na sociedade brasileira.

Segundo o diretor Antônio Olavo, foi utilizado como eixo central para o filme um longo depoimento que o Abdias Nascimento concedeu à sua equipe em 2005. “A partir desta referência maior, abrimos ‘janelas’ para contar um pouco da história do movimento negro no século XX no Brasil, pois entendemos que a trajetória de Abdias se confunde com a história de luta e organização do negro no Brasil neste período”, afirmou Olavo, exaltando a importância do Abdias poeta, ator, escritor, dramaturgo, artista plástico, professor universitário, político e ativista dos direitos civis e humanos das populações negras.

Quem foi à exibição na ABI, encontrou “um filme que  nos conduz a uma profunda reflexão sobre a questão racial no Brasil, e perceber que a luta pela igualdade racial e uma sociedade justa vem de longe e continua necessária, ontem como hoje”, disse Antônio Olavo, também autor dos documentários “Paixão e Guerra no Sertão de Canudos” (1993), “Quilombos da Bahia” (2004), “A Cor do Trabalho” (2014) e da série documental “Travessias Negras” (2017).

História de Abdias

Abdias Nascimento nasceu em uma família negra e pobre da cidade de Franca, interior do Estado de São Paulo. Participou da Frente Negra Brasileira na década de 1930, e fundou o Teatro Experimental do Negro, em 1944. Em 1945, organizou a Convenção Nacional do Negro, e, 1950, o I Congresso Negro Brasileiro. Anos depois, em 1968, Nascimento fundou o Museu de Arte Negra.

Exilado pela ditadura militar, percorreu o mundo ministrando aulas e conferências em várias universidades norte-americanas e europeias, sempre denunciando a discriminação racial no Brasil. Ao retornar do exílio, participou da histórica fundação do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial (MNUCDR), em 7 de julho de 1978. Depois, em 1983, assumiu pelo PDT uma cadeira na Câmara Federal, tornando-se o primeiro deputado a exercer o mandato defendendo os direitos civis dos afro-brasileiros. Faleceu em 24 de maio de 2011, aos 97 anos, vítima de uma pneumonia que se complicou e agravou problemas cardíacos.

Confira a seguir um bate-papo com o cineasta Antônio Olavo sobre o filme: 

ABI – A que se deve o pouco conhecimento do público sobre figura tão importante para a nossa história e cultura?

Antônio Olavo – No Brasil, as elites implantaram uma ideologia dominante que arrastou para uma zona de invisibilidade personalidades importantes da nossa história, especialmente aquelas ligadas às lutas e aos movimentos sociais do povo negro e do povo indígena. Para muitos desses homens e mulheres, que protagonizaram períodos definidores dos rumos do país, foi negado o justo direito do registro e o reconhecimento. Em uma sociedade desigual e preconceituosa como a brasileira, desde os primórdios de sua formação houve a consolidação de uma memória das elites brancas, como se observa nos grandes esforços dedicados à preservação dos casarões, palacetes e acervos pessoais dessa elite, muitas vezes com investimento de dinheiro público. Outro exemplo dessa política discriminatória são as denominações das ruas, avenidas e logradouros públicos, quase todas com os nomes da elite, perenizando uma memória como se fosse única e absoluta, imposta ao nosso inconsciente. Contudo, nas últimas décadas tem crescido um movimento contra-hegemônico de afirmação de uma outra memória, movimento esse que recupera e difunde trajetórias daqueles e daquelas que lutaram por sociedade justa e uma vida digna. E assim, ao afirmar outra memória, estamos contribuindo para contar outra história do Brasil. Abdias Nascimento faz parte desse nosso panteão de grandes vultos da história. Ele dedicou toda sua longa vida (1914 – 2011) em defesa dos direitos do povo negro, e em seu tempo, foi reconhecido e admirado, como ator, diretor, escritor, deputado federal, senador entre muitas outras atividades que exerceu. Cabe a nós continuar celebrando a sua memória.

Qual o seu principal objetivo ao contar a história de Abdias e como surgiu a ideia de fazer o documentário?

Ao perceber que a trajetória de Abdias estava entrelaçada com parte das lutas do povo negro no Brasil, resolvi construir uma linha do tempo que falasse de sua história de vida, que se inicia em 1914, destacando as lutas contra o racismo já nos anos 1930, a fundação do Teatro Experimental do Negro em 1944, sua inserção no movimento negro brasileiro contemporâneo e sua ativa participação parlamentar. No filme, a história de Abdias funciona como eixo narrativo, abrindo janelas para contar  as lutas do povo negro no século XX no Brasil. A ideia de fazer o documentário surgiu de Carlos Moore, etnólogo e escritor cubano, grande amigo e companheiro de Abdias por mais de 50 anos, que deu a mim e a Raimundo Bujão a difícil e honrosa missão de fazer um documentário sobre esse personagem único. Filmamos vários encontros com Abdias, em Salvador e no Rio de Janeiro, mas enfrentamos muitas dificuldades na captação de recursos para concluir o filme, iniciado em 2005. Mas em 2008, graças ao apoio da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, conseguimos concluir e tivemos a felicidade de fazer o lançamento em março de 2008, em um Teatro Castro Alves lotado, com a presença honrosa de Abdias, celebrando seus 94 anos.

Sua obra é repleta de filmes que resgatam a força e as cores do Brasil. Qual a importância de trazer essa temática, especialmente no mês da consciência negra?

Abdias Nascimento Memória Negra foi nosso terceiro longa-metragem, antes fizemos Paixão e Guerra no Sertão de Canudos (1993) e Quilombos da Bahia (2004), e nosso interesse em produzir esses documentários sempre foi o de contribuir para a valorização da memória social, particularmente a memória negra, na Bahia e no Brasil. E isso é algo que sempre deve estar presente em nosso cotidiano, independente do dia ou do mês. Evidentemente que em novembro há uma concentração de atividades e uma discussão e reflexão maior sobre as questões raciais, mas precisamos que a Consciência Negra esteja presente todos os dias do ano. (Fonte: Site da ABI-Bahia).

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