Política

Figura notória no impeachment de Collor, Thereza fala da batalha pela herança com o ex-cunhado

Maria Thereza Pereira de Lyra  (ex-Thereza Collor) reúne todos os atributos de uma pessoa nascida em berço de ouro. O pai, João Lyra, é usineiro e político. A mãe, Solange Ramiro da Costa, também era ligada ao agronegócio e de família influente – era sobrinha de Epitácio Pessoa, presidente da República entre 1919 e 1922. Dinheiro e prestígio andavam de mãos dadas na família desde sempre, mas nada que não pudesse melhorar. O sorriso largo e a beleza da morena encantou o empresário Pedro Collor de Mello, herdeiro de um conglomerado que incluía emissoras de TV, rádios e jornal no Nordeste. Casaram-se, tiveram dois filhos, Fernando e Victor.

Anos mais tarde, seu marido delatou a VEJA o esquema de corrupção do irmão, Fernando Collor, então presidente da República, cujo desfecho foi o primeiro impeachment da América Latina, em 1992. Thereza virou musa nacional, apareceu em capas de revistas e estrelou campanhas publicitárias. Pedro morreu em dezembro de 1994. Com seu segundo casamento, com o construtor Gustavo Helbreich, que já dura quinze anos, Thereza deixou os holofotes e criou uma coleção fenomenal de arte étnica. Agora ela quer mais. Aos 55 anos, vai disputar pela primeira vez uma eleição para deputada federal. Sentada no chão de seu apartamento-museu, em São Paulo, ela deu a seguinte entrevista a VEJA:

Por que a senhora quer ser política? Sou filiada ao PSDB e fui secretária de Turismo de Alagoas entre 1996 e 1997. Nunca disputei uma eleição. Agora, com o país mergulhado em uma crise ética e moral, quero deixar o meu legado. O Congresso precisa dar forças para o judiciário investigar os políticos corruptos.

Mas logo o Congresso? Sei que o Congresso está podre, no entanto é necessário ter uma renovação de políticos, agora ilibados, para eles comandarem as comissões, entre elas a de Justiça. Hoje, o que se vê, é um monte de deputado querendo atrapalhar o trabalho dos juízes. Com o feminismo sendo a pauta da vez, nós temos a chance de fazer a diferença. Veja que o meu partido tem apenas cinco deputadas federais. As mulheres serão o melhor remédio contra essa onda de intolerância.

O Brasil teve uma mulher na presidência e a intolerância não diminuiu. A Dilma Rousseff não tinha o que esperamos de uma mulher: moderação e sensibilidade. Ela trabalhou de uma forma masculina, bateu de frente e não foi sutil.

A senhora chegou a receber convites de outros partidos? Sim. Conversei algumas vezes com o Eduardo Jorge, do PV, mas não sei até que ponto eu teria espaço dentro do partido. O PSDB tem seus problemas, com políticos sendo investigados, mas acredito ainda nos ideais da turma das antigas, como Mario Covas e Franco Montoro. O Geraldo Alckmin ainda não sabe que irei disputar a eleição.

Não? Eu precisava definir a minha vida. Cheguei a ter conversas com o Eduardo Jorge, do PV, mas desisti. O Pedro Tobias, presidente paulista do PSDB, fez a maior festa porque fiquei.

Há semelhanças entre o impeachment de seu ex-cunhado, Fernando Collor, e de Dilma Rousseff? Sim. Eles foram causados pela corrupção e pela insatisfação popular, e só aconteceram porque as pessoas foram se manifestar nas ruas. Nenhum deles teve habilidade para fazer as costuras com o Congresso. Também há semelhanças dos personagens que cercam ambos. Eu fui avisada sobre o impeachment do Fernando Collor por Renan Calheiros. Ele me ligou, feliz, quando eu estava em Miami com o Pedro tentando colocar a nossa vida em ordem. O mesmo Renan participou da queda da Dilma. Ele talvez seja a pessoa mais habilidosa no país. Está sempre no poder.

Como avalia o anúncio da pré-candidatura à presidência de Collor? A idade nos coloca em uma altura de onde podemos vislumbrar um horizonte mais largo. Veja que ele chegou a ser investigado pela Lava-Jato, alguns de seus carros foram recolhidos da garagem, e dessa vez não era um fiat Elba, mas Ferrari e Porsche. Ele não aproveitou a sabedoria que a idade traz. Mas não quero um embate, cada um tem sua história. Há quatro anos, o Teotônio Vilela Filho me convidou para disputar uma vaga do Senado por Alagoas. Eu iria concorrer diretamente com o Fernando. Não topei. As questões do estado ficariam em segundo plano.

A senhora brigou com o seu filho Fernando porque ele declarou apoio à candidatura presidencial do tio? Olha, o Nando é um homem e tem as suas escolhas. Eu respeito porque sou democrática, não me meto. O meu filho sabe a minha linha.

A senhora mantém relação com a família Collor? Sou amiga e quero bem o Arnon Affonso e o Joaquim Pedro, filhos de Fernando Collor com a Lilibeth Monteiro de Carvalho. Com o Fernando, não tenho contato embora haja civilidade. Há seis meses o encontrei em um restaurante de Alagoas. Nos cumprimentamos, sem dar as mãos.

Em 2014, Rosane Malta, ex-mulher de Collor, escreveu em uma autobiografia dizendo que senhora teria paquerado o Collor. Essa informação procede? A Rosane perdeu a oportunidade de ter sido uma grande primeira-dama. Nunca tive nada com ele. O Fernando era um homem carismático e naturalmente sedutor. Nunca teve nada pessoal. Quando ele se separou da Lilibeth em 1981, mudou de comportamento. Passou a sair mais e ganhou o apelido de prefeito-mosca de Alagoas, por nunca aparecer no gabinete pelas manhãs. Aos poucos, foi se afastando mais da família. Quando presidente, tentou criar um jornal para concorrer com a Gazeta de Alagoas, que era da família. O Pedro ficou possesso. O Fernando se sentia o Rei Sol, o Luís XIV do Brasil. A própria mãe, dona Leda, não conseguia falar com o filho por telefone. Ela precisava ir encontrá-lo em Brasília, com hora agendada, às 7 da manhã. Isso não é horário que se marque com uma senhora.

Dona Leda faleceu em fevereiro de 1995, dois meses após a morte de Pedro. Mãe e filho estavam brigados? Ela foi obrigada pelo Fernando a dizer que o Pedro era louco e a tirá-lo da presidência das Organizações Arnon de Mello (eram donas de uma emissora de TV, quatro rádios e um jornal). Nós não tínhamos um carro em nosso nome, estavam registrados em nome da empresa. Então eu me vi sem automóvel para me locomover. Também suspenderam a assinatura do jornal da família. A dona Leda ficou muito brava com o Pedro porque ele fez as denúncias, ela prezava pela dignidade da família. Ela chegou a se lamentar no hospital: “No fim da vida, tenho um filho ladrão e outro delator.” Eu fui ao enterro dela. O Fernando não apareceu. Eu sinto muitas saudades da dona Leda.

Sua ex-sogra chegou a mudar o testamento em detrimento de Pedro depois da denúncia? O Pedro cuidava dos negócios da família, tem o mérito de ter feito as empresas crescerem. A mãe reconhecia todo esse trabalho. No final, houve essa mudança obscura na documentação. Ela ficou perdida com as denúncias e, com a influência do Fernando, refez o testamento. Até hoje, meus filhos ainda não receberam a parte deles nas Organizações Arnon de Mello, pois o Fernando cria entraves na Justiça. Teoricamente, também temos um apartamento no Parque Guinle, no Rio, que até hoje não passou para o nome dos meninos. Além disso, o Dr. Arnon, marido da Leda, tinha dado um apartamento pequeno ao Pedro, ainda em vida, no Leblon, mas teve esse pepino…

Qual pepino? Um mês depois de ficar viúva, um oficial de Justiça veio bater em minha porta com um pedido para exumar o corpo do Pedro. Eu nem sabia o que era isso. Apareceu um rapaz de Brasília, de 30 anos, dizendo ser filho dele. Mas não havia nenhuma prova: foto, carta, bilhete… Nada. Procurei meu pai, que não quis me ajudar, então recorri a um advogado. Sem nenhum indício da acusação ser verdade e alegando direito à privacidade, não permiti exumação nem que recolhessem o DNA dos meus filhos. Nós perdemos a causa e o apartamento do Leblon ficou com esse rapaz.

A senhora começou a trabalhar após a morte do Pedro? Sim. Eu tinha dois filhos pequenos e tive de me virar. Fui secretária de Turismo de Alagoas e fiz alguns trabalhos publicitários. As pessoas me paravam na rua para pedir fotos e autógrafos. O SBT me convidou para ter um programa, não aceitei. Alguns cachês eu pedia em doação para obras sociais do Nordeste. Eu me recusei a fazer uma campanha para a Brastemp. O slogan da campanha era “roupa suja se lava em casa”.

A senhora ficou surpresa ao virar a musa do impeachment? Meu filho, na política, ambiente masculino e com pessoas sem muita beleza… Daí aparece uma moça nova, que tratava todo mundo bem. As pessoas me acolheram. Em contrapartida, cada passo que eu dava era publicado e a minha vida amorosa virou assunto nacional. E a quantidade de namorado que me arranjavam? Não podia sair de casa.

A senhora chegou a namorar o Paulo Henrique Cardoso, em 1998, filho do então presidente FHC? Sim, mas foi passageiro. Fiz uma campanha para a Havaianas no estúdio do Raul Doria, irmão do João Doria. O Paulo estava lá. Cheguei a conhecer o Fernando Henrique e dona Ruth. O FHC hoje é um grande amigo. Somos vizinhos de rua e nos encontramos com frequência. Ele ficou preocupado de me ver nesse jogo político, porém me incentivou. Mas veja as voltas que a vida dá. Anos atrás fui ao casamento do Sergio, filho da Lilibeth de outro relacionamento. Eu e meu marido nos sentamos à mesa com o Paulo Henrique.

O seu marido, Gustavo Halbreich, é muito discreto e a senhora se afastou da ribalta desde que se casaram, em 2001. O que fez nesse período? Muita coisa. Eu estudo muito e sou a favor do multicultural. Enquanto minhas amigas iam à Disney, eu visitei Irã, Turquia, Egito e Grécia aos 14 anos idade. Eu costumo viajar duas vezes por ano para países como Indonésia, Turcomenistão, Índia, Papua Nova-Guiné e Mongólia. Para Síria e Iêmen, devido aos conflitos, não poderei voltar mais. Levo do Brasil minha comida separada em plásticos, com porções diárias de queijo, presunto cru, café e damasco. Na China, na fronteira com o Vietnã, escutei que se come rato. Vou preparada para não passar fome. Durmo em barracas e, em alguns casos, fico sem tomar banho. Não sou vaidosa. Jamais apliquei Botox no rosto, não frequento academia e faço a unha de vez em quando.

A sua casa parece uma galeria de arte com objetos do Oriente. Pretende criar um museu? Sim, talvez em Alagoas. Tenho milhares de peças garimpadas em anos de pesquisa. Há colares de prata, brincos de dente de urso e adereços de marfim. Muitas vezes, compro direto das pessoas das tribos. Já esperei mais de seis horas para negociar um colar com um líder da Índia, que havia entrado na floresta para caçar.

Como a senhora vê a luta global pelo fim da comercialização do marfim? Jamais compro itens novos, eles são de décadas atrás. Quando volto ao Brasil veio diretamente do Oriente, que permite a venda desses produtos. Na Europa, as peças seriam apreendidas.

A senhora tem tremores nas mãos. É alguma doença? Há dez anos, fui diagnosticada com uma doença neurológica chamada tremor essencial. Ela causa espasmos involuntários nas mãos e nos braços. O chato é que algumas pessoas podem pensar que estou tensa. Não tem nada disso. Estar nervosa não aumenta os espasmos. Já o cansaço, sim. O lado bom é que nada em minha vida foi alterado, não deixo de fazer nada e me sinto sempre disposta. Em minhas viagens, eu mesmo fotografo pessoas e paisagens com uma câmera profissional.

(Fonte: Revista Veja)

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