Política

Lula insiste em bloquear uma nova liderança de esquerda

A frase, atribuída a Lula e não desmentida, que define o candidato do PDT à presidência da República Ciro Gomes como “um bom quadro, mas não um líder”, é exemplar do tipo de liderança que o ex-presidente exerce no Partido dos Trabalhadores.

Mais que isso, mostra como ele persiste na ação de não deixar que uma nova liderança de esquerda surja à sua sombra, muito menos fora do PT. O “sapo barbudo” engoliu seu principal concorrente, Leonel Brizola, autor do apelido, transformando-o em seu vice em 1998 para depois descartá-lo, assumindo a liderança da esquerda brasileira sem concorrentes de peso.

Essa é uma das razões porque Lula hoje não quer que Ciro seja a alternativa à sua candidatura. Confirmando que se trata mesmo de uma “metamorfose ambulante”, Lula volta ao principismo das origens do PT. Essa expressão vem do início dos anos 80 do século passado, quando se discutia a criação do Partido dos Trabalhadores.

Na impossibilidade de encontrar definições que agradassem às várias tendências e grupos internos, a estratégia do partido acabou sendo subordinada ao que chamam de “principismo”, uma série de princípios gerais supostamente de esquerda que poderiam ser adotados por qualquer corrente sem constrangimentos.

Em nome desse “principismo”, por exemplo, o PT se recusou durante muito tempo a fazer acordos, ou a participar de alianças partidárias. Não aceitou entrar na frente oposicionista, inclusive no governo de transição de Itamar Franco, após a queda de Collor; o que o próprio Lula já reconheceu ter sido um grave erro do partido. Também não assinou a Constituição de 1988.

No governo, Lula admitiu que mudou de opinião alegando ser “um ser humano”. Isso aconteceu por volta de 2008, antes, portanto, que se transformasse em “uma ideia”, como se definiu na despedida do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, antes de ir para a cadeia.

Na versão pragmática de Lula, “não se governa com principismo”. Assumindo uma posição política que poderia ser vista como cínica, Lula passou a ensinar que “principismo você faz no partido, quando pensa que não vai ganhar nunca as eleições. Quando vira governo, governa em função da realidade que tem”.

Lula, farejando que o poder estava a seu alcance em 2002, já havia derrubado esse “principismo” quando exigiu a formação de uma aliança política com a direita, dando a vice-presidência para o empresário José Alencar. Foi também mandando o “principismo” às favas que Lula contratou para a sua campanha o marqueteiro Duda Mendonça, que fora o estrategista das campanhas de ninguém menos que Paulo Maluf.

Ao estimular a ideia de que ainda pode vir a ser candidato, ele garante o único trunfo que lhe resta, e ainda incentiva o PT a alimentar a ilusão de que, em caso de confirmação de seu impedimento – dúvida que só existe para prolongar a aparência de que ainda não acabou – o candidato substituto será um puro sangue petista e não, como rejeitavam na ocasião algumas correntes internas, uma outra Dilma Rousseff, de origens brizolistas.

Apesar de tudo, Lula escolheu Dilma porque pensava que poderia manipulá-la e, mais que isso, queria voltar na sua sucessão em 2014. Não contava com a astúcia dilmista, que se segurou na cadeira presidencial sem lhe dar alternativas. O poder, como se sabe, é o maior afrodisíaco, e Dilma partiu para seu calvário sem deixar que o grande líder a substituísse.

Agora, quando tiver que indicar seu substituto, escolherá dentro do PT quem não lhe faça sombra. Depois de ter demolido Brizola, a última coisa que Lula quer é fortalecer o PDT e dar condições a outro líder popular de esquerda de assumir seu lugar.

Assim como no caso de Dilma, para sorte de quem não comunga com suas ideias, estará cometendo mais uma vez um erro político por egocentrismo, pois a esta altura nada garante que transfira parte de seus votos presumíveis a um petista de raiz desconhecido do eleitorado.

Ciro Gomes seria a alternativa mais viável para a esquerda, mas Lula não quer que ele passe de um simples “quadro” partidário e se transforme em um líder. (Merval Pereira  / O Globo).

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