Cultura

Encontro reúne repentistas nordestinos na Casa do Cantador, em Ceilândia

“Neste ano celebramos/ Com um grande festival/ Com campeões do repente/ Cantadores sem igual/ Veteranos da viola/ E a geração atual”. Esses versos de Donzílio Luiz saúdam a realização da quarta edição do Encontro Campeões do Repente, que ocorre hoje e amanhã, em comemoração aos 32 anos da Casa do Cantador, em Ceilândia, o reduto da cultura popular no Distrito Federal.

Sob o lema Encontro de gêneros e gerações, o festival tem como ponto alto os desafios competitivos que reúnem cantadores do Nordeste e de Brasília. Mas há ainda a apresentação do grupo teatral Mamulengo Presepada, que abre a programação na primeira noite; e do Mamulengo Fuzuê, na noite seguinte. Outro destaque é a Oficina de Poesia Popular Nordestina – aberta ao público – comandada por Chico de Assis e João Santana.

Idealizador e coordenador-geral do evento, o potiguar Chico de Assis (abaixo), radicado em Brasília há 24 anos, explica que o Encontro de Repentistas se deu diante da perspectiva de trazer ao DF cantadores que ostentavam o título de campeão em outros festivais do gênero. “Logo na primeira edição, em 2008, contamos com a participação dos consagrados Ivanildo Vila Nova e Antônio Lisboa, dois heróis do improviso”.

Realização da Associação dos Cantadores Repentistas e Escritores Populares do DF (Acrespo), o evento, em sua primeira edição, ocupou o Setor de Diversões Sul (Conic). As duas subsequentes, em 2010 e 2014, tiveram como palco a Casa do Cantador. “Nos encontros anteriores, tivemos o apoio da Petrobras; e o de agora está sendo custeado com recursos do FAC/DF”, diz Assis.

Quem abre a programação, hoje, às 20, é o Mamulengo Presepada. Em seguida há a disputa de cinco duplas de repentistas de Brasília e do Entorno; e, no encerramento, anuncia a dupla vencedora, que, amanhã, toma parte na fase final da competição, lado a lado com os cantadores nordestinos. Antes, porém, o público pode apreciar o trabalho do Mamulengo Fuzuê.

A escolha dos vencedores fica a cargo do júri formado por Rene Bomfim, músico, compositor e vocalista das bandas Paraibola e Caco de Cuia; Donzílio Bonfim, músico, compositor, repentista, cordelista; João Bosco Bezerras, cordelista e doutor em linguística; e Lília Diniz, atriz, cordelista e declamadora. Eles utilizam como ítens para julgamento rima, métrica, oração poética e língua portuguesa. São elementos usados na linguagem formal do repente.

João Santana, 38 anos, destaque entre os repentistas brasilienses, participou de todas as edições do encontro. “Sou ligado ao repente desde a adolescência. A partir de 2002, passei a ser convidado para participar de festivais em estados do Nordeste, onde o meu trabalho é reconhecido. Nesta quarta edição do Encontro dos Campeões do Repente, formo dupla com Valdenor de Almeida, paraibano que mora em Brasília há muitos anos”, conta.

Atrações nacionais

Veterana repentista pernambucana, Mocinha de Passira, 72 anos, é uma das atrações nacionais do festival. Na estrada há mais de cinco décadas, ela tem como companheira de dupla a paraibana Minervina Ferreira. Outro é o piauiense Edmilson Ferreira, que levou seu canto a mais de 300 encontros e conquistou incontáveis prêmios e troféus — boa parte deles ao lado do potiguar Antônio Lisboa.

Cantador profissional desde os 16 anos, Edmilson, embora tenha iniciado a trajetória em Oeiras (PI), onde nasceu, foi em Pernambuco que viria a se tornar um dos ícones do repente. Aos 45 anos, credita que já marcou presença em mais de 300 festivais e encontros de cantadores, principalmente no Nordeste, mas também em São Paulo e Brasília.

“Tomei parte em todos os encontros promovidos pelo Chico de Assis, na Casa do Cantador, em Ceilândia, que é a principal referência da cultura popular nordestina na capital do país. Estou de volta com o meu parceiro fixo de cantoria, Antônio Lisboa. O Chico é um baluarte do nosso segmento no Distrito Federal, e o trabalho que ele realiza merece os aplausos de todos nós”.

Cantadora há 40 anos, Minervina Ferreira, paraibana de Cuité, começou no repente depois de casada. “Criança, assistia à apresentação dos cantadores em casa, pois meus pais eram muito festeiros. Eles, porém, não queriam que eu me tornasse uma artista. Só depois de casada é que pode seguir o meu destino, incentivada por meu marido. Já levei minha arte a todo o Nordeste e estive em Brasília várias vezes, mas nem sempre para cantar, e sim para participar de eventos como a Marcha das Margaridas, Territórios Rurais e do 1º Encontro das Mulheres Camponesas do Brasil”, lembra.

Minervina tem  discos lançados, sendo um com Mocinha de Passira, com quem forma dupla há algum tempo. “Eu e Mocinha nos entendemos muito bem e temos participado de vários festivais. Voltar ao Encontro de Repentistas na Casa do Cantador é muito importante, pois sinto que estou contribuindo para o fortalecimento do repente na capital federal, num local onde é grande a presença de nordestinos”, afirma.

Entrevista: Mocinha de Passira

O nome da senhora é Maria Alexandrina da Silva. Quem lhe conferiu o apelido de Mocinha de Passira?

Recebi esse apelido de Mocinha assim que nasci, mas não sei quem me deu. Quando fugi de casa para ser repentista, passaram a me chamar de Mocinha de Passira, porque nasci na várzea de Passira, lugarejo próximo de Limoeiro, em Pernambuco.

Como e quando o repente entrou em sua vida?

Foi uma coisa de Deus. Eu era adolescente quando houve uma festa na casa dos meus pais, com a apresentação de um cantador. Fiquei encantada com o que via e ouvia e decidi ser repentista. Logo depois, como um passarinho que sai do ninho, já estava cantando em Limoeiro, Glória do Goitá, Lagoa de Itaenga e Vitória de Santo Antão, no interior de Pernambuco.

Quem foi o seu mestre?

Meu maior mestre foi o paraibano Pinto do Monteiro. Ele morava em Pernambuco e tinha casas em Caruaru e Sertânea. Morei na casa dele e fui crescendo com minha arte. Outro que destaco é Lorival Batista.

Lembra do primeiro festival do qual tomou parte?

Já faz muito tempo, mas me lembro que foi em Olinda. Já havia um certo reconhecimento do meu trabalho. Depois passei a ser convidada a participar de outros encontros em todo o Nordeste. Em Brasília estive pela primeira vez em 1982.

Quantos discos lançou?

São 10 CDs, sendo alguns com outros cantadores, entre eles o baiano Bule Bule, o maranhense Sebastião Marinho e a paraibana Minervina Ferreira, minha parceira de dupla, com quem vou me apresentar no Encontro dos Campeões, na Casa do Cantador, neste sábado.

Conquistou muitos prêmios ao longo da carreira?

Já perdi a conta. Mas o meu maior prêmio foi ter recebido o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, o que muito me honra.

(Fonte; Correio Braziliense/ foto: Verônica Moreira/Divulgação)

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