História

Euclides da Cunha: Lágrimas marcam despedida das vítimas da tragédia com ônibus da fanfara

Numa manhã de 25 de novembro de 2018, de um domingo de primavera, a estação das flores, da alegria, da renovação, que tinha tudo para ser mais um dia de alegria e satisfação para Euclides da Cunha, em especial para uma banda musical chamada Faneob (Fanfarra do Educandário Oliveira Brito) – que ganhou fama e prestígio em todo o Estado da Bahia, pelos quatro títulos conquistados em campeonatos de bandas e fanfarras, dezenas de troféus, mudança de categoria e muito respeito por parte das concorrentes – em fração de segundo tornou-se um pesadelo difícil de ser esquecido para seus componentes e familiares, amigos, e toda a população de Euclides da Cunha.

O relógio marcava 10h50, pouco mais de duas horas de viagem, depois de ter deixado Euclides da Cunha com destino à cidade de Antônio Gonçalves, na Região Metropolitana de Feira de Santana, no agreste baiano, distante 240 Km, percurso a ser feito em 3 horas e 50 minutos, o sonho de conquistar mais uma etapa do concurso de bandas musicais foi interrompido (temporariamente) abruptamente, por um violento acidente rodoviário que ceifou prematuramente a vida de cinco componentes da banda, inclusive do presidente e maestro Marcos Silva Brito (Marcão), do trompetista Fernando Andrade de Almeida (Fernandinho), Rafael José da Silva (Rafinha), Jéferson Conceição dos Santos (Jefinho), causado por uma tentativa de ultrapassagem em local proibido, de uma carreta que transportava um carregamento de colchões, segundo a Polícia Rodoviária Federal, que também causou ferimentos leves em mais 27 pessoas que viajavam no coletivo.

Quando a tragédia foi anunciada pela rede social WhatsApp, em minutos, a cidade entrou em polvorosa. As fotos chocantes do acidente, das vítimas indefesas e expostas aos curiosos caçadores de imagens desrespeitosas, capturadas por smartphones e imediatamente disseminadas nas redes sociais, deixaram em estado de choque familiares e amigos, admiradores da “fanfarra mais ousada da Bahia”, como costumava dizer o prof. Reinivan Brito (Rony) – Mor, que com sua baliza mágica, arrancava aplausos da plateia, com suas evoluções, elegância, comandava coreografias executadas pelo instrumental – quando o tema abordado era Faneob.

Grupos de WhatsApp publicavam informações sobre o triste acontecimento, muitas das quais distorcidas, de interpretação duvidosa, que eram repassadas sem que houvesse o mínimo de veracidade, principalmente sobre o estado clínico das vítimas, causando mais sofrimento e dor aos familiares e amigos, ao tempo em que o administrador de um desses grupos (ADS), se preocupava em confirmar ou corrigir postagens, e até fazer apelo para que se evitasse informações sem veracidade comprovada. Adenilton Silva foi um elo de comunicação muito importante, juntamente com seus colaboradores que se encontravam no local do acidente e depois em Feira de Santana, com informações verídicas passadas aos membros do grupo.

Assim que a notícia se espalhou, repentinamente a cidade foi tomada por uma tristeza sem fim, nos bares, nos lares, nas rodas de amigos não se falava em outra coisa que não fosse o trágico acidente. O ambiente ficou “pesado”, até o céu perdeu um pouco da beleza de suas nuvens, em plena luz do dia; um silêncio profundo tomou conta da cidade, que até tinha sido colocado um telão para a torcida acompanhar o jogo da seleção euclidense, pelas semifinais do campeonato intermunicipal de futebol; mas diante do acontecido, não fazia mais sentido algum, mantê-lo armado na Praça Duque de Caxias, local de várias apresentações da “mais ousada da Bahia”.

Foi um dia de domingo que tinha tudo para ser de grande alegria e prazer para Euclides da Cunha, mas que se tornou num dia cinzento, daqueles que nunca vale a pena relembrar, quando finalmente, foram se confirmando oficialmente os óbitos. A tragédia ganhou grandes proporções no noticiário nacional, que logo replicaram em seus portais de notícias, inclusive com imagens nos noticiários de seus principais programas dominicais, que continuaram como matéria de pauta nos noticiários desta segunda-feira.

Ao tomar conhecimento da tragédia, o prefeito Dr. Luciano Pinheiro mobilizou seus secretários e determinou prioridade total ao atendimento das vítimas e seus familiares e que fosse agilizado o retorno do restante da delegação para Euclides da Cunha, principalmente, os que sofreram ferimentos e foram atendidos nos hospitais de Santa Bárbara, Clériston Andrade e Hospital Estadual da Criança, em Feira de Santana, para onde haviam sido levados para atendimento (várias crianças compõem o quadro de instrumentos de sopro e percussão da Faneob); que fosse priorizado a liberação dos corpos pelo IML – Instituto Médico Legal, de Feira de Santana, e o rápido traslado para Euclides da Cunha, o que realmente foi feito.

Nesta segunda-feira (26), os primeiros corpos foram entregues aos familiares, em suas respectivas residências e, depois, levados para serem velados no Plenário da Câmara Municipal de Vereadores, que havia divulgado “nota de pesar” assinada pelo presidente Bolivar Francisco Alves, pelo trágico acontecimento e colocando à disposição dos familiares das vítimas, o principal salão do Poder Legislativo Municipal, para que fossem velados pela população.

A cidade teve uma manhã e tarde de segunda-feira, de grande movimentação, com várias delegações de municípios de diferentes regiões, com os quais a Faneob, graças ao excelente trabalho do presidente Marcos Brito (Marcão), consolidou laços de amizade muito bons, que nunca se desfizeram, nem mesmo quando tiveram que se enfrentar em disputas acirradas nos concursos de bandas e fanfarras. Marcão era diplomático, humilde, dedicado, gostava de fazer amigos, e os fez por todas as cidades por onde desfilou com a Faneob e/ou trabalhou como regente, por um certo período.

Amigos de bandas e fanfarras de Cansanção, Monte Santo, Uauá, Tucano e Biritinga vieram prestar sua última homenagem e dar o adeus final ao querido amigo e grande incentivador desse tipo de arte e cultura musical bastante propagada e praticada em todo o Brasil.

A movimentação de pessoas, que no período da manhã já tinha sido além da expectativa, pois o comércio funcionava normalmente e, apenas, os estabelecimentos de ensino suspenderam as aulas, à tarde, quem chegou à Câmara de Vereadores teve dificuldade para acessar ao salão principal, tamanho o volume de pessoas que já se encontrava aguardando o momento de saída dos corpos.

Nem mesmo a chuva, tão aguardada pelo nosso sofrido povo sertanejo castigado pela forte seca, que começou levemente e se tornou em fortes pancadas, foi capaz de afastar homens, mulheres e crianças acostumados a assistir às belíssimas apresentações da nossa queridíssima Fanfarra do EOB, que merecidamente e meritoriamente, chegou à categoria de Banda Musical e credenciada a participar de competições oficiais pelo Brasil. Mérito de Marcão e todos seus colegas de diretoria, músicos, balizas, ballet, porta-estandarte, entre outros, aos quais humildemente agradecia ao final de cada apresentação.

Passava um pouco do horário estabelecido para o início da despedida, quando chegaram as urnas funerárias com os corpos de Jéferson Conceição (Jefinho) e Marcos Brito (Marcão), que estavam sendo velados em suas respectivas residências, ambos acompanhados de grande cortejo formado pela Guarda Mirim e por moradores do bairro Nova América, onde residiam. Em seguida, o corpo de Fernando Almeida (Fernandinho), que também estava sendo velado na residência de familiares no Bairro da Caixa D’Água, também chegou e, assim com Jefinho e Marcão, foi aplaudido calorosamente, aplausos que se repetiram no momento em que os esquifes deixaram o prédio do Poder Legislativo Municipal.

No pátio da Câmara de Vereadores, pessoas se amontoavam à frente da porta de acesso ao Salão Nobre, mesmo debaixo de chuva, na tentativa de adentrar ao recinto e dar o seu adeus final, fazer uma oração, tocar ao caixão, ao rosto, num gesto de carinho, sentimento e reconhecimento dessas pessoas que lhes proporcionaram momentos de alegria e diversão com a sua arte musical voluntária.

A chuva que não dava trégua, também lavava com a água abençoada e intermitente que caía do céu, as lágrimas que escorriam pela face de colegas, familiares, amigos, até mesmo, quem já está acostumado a reportar acontecimentos trágicos. Veio, então, o momento de homenageá-los da forma que eles, Marcão, Fernadinho, Jefinho, Rafinha e Rodrigo mais gostavam: apresentação da Faneob. Era visível a dor que calava no peito dos jovens fanfarristas, das pessoas que se abraçavam e repartiam solidariedade, gritos de desespero eram ouvidos a todo instante.

Mesmo com a dor insuportável causada pela separação para sempre dos colegas que haviam partido para o infinito, esses jovens músicos sopravam seus instrumentos com força e sem distorção nas notas musicais que saíam de trompetes, trombones, bombardinos, acompanhados pela batida forte da percussão, como se aquele momento fosse um daqueles dias de vitória nas dezenas de concursos pelas várias cidades do Estado da Bahia. O espírito musical de Marcão estava presente em cada um desses jovens, meninos e meninas da Faneob que não arredaram o pé, um só instante, mesmo debaixo de fortes pancadas de chuva, bem assim, todo o público que lotava parte da Rua Otávio Mangabeira e Rua Oliveira Brito.

Momento de despedida marcado por discursos emocionantes de colegas, professora, precedidos de um discurso surpreendentemente feito por Juarez, um jovem apaeano, composto de palavras sinceras, sentimentais, de reconhecimento de méritos das vítimas. Juarez foi recompensado com os aplausos. A representação de Biritinga também fez sua homenagem, numa bela mensagem de conforto de sua fanfarra e, também, em nome do prefeito municipal daquele município amigo.

Findo às homenagens, o cortejo seguiu pela região central da cidade, passando pela Rua Oliveira Brito, Av. Ruy Barbosa, Praça Duque de Caxias e Praça da Bandeira, locais de grandes apresentações musicais e culturais da Faneob. Em sinal de respeito, durante a passagem do cortejo fúnebre, o comércio cerrou suas portas.

Na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, uma missa em ação de graças de encomendação dos corpos, presidida pelo padre Charles Batista, auxiliado pelo monsenhor Jayme Oliveira, com a presença de autoridades, entre elas, Dr Luciano Pinheiro (parceiro e colaborador/Faneob há mais de uma década), Betão Campos, José Raimundo Moura da Costa, Profª Fabiola Bastos, Neílton Rocha, respectivamente, prefeito, vice-prefeito, secretário de Infraestrutura, secretária da Educação e Cultura, Assistência de Desenvolvimento Social.

A celebração ecumênica foi encerrada com oração e bênção especial seguida de aspersão de água benta sobre os caixões, cantos e louvores pelo coral, quando então, o cortejo deixou a Igreja Matriz e seguiu para o Cemitério Municipal de São José, onde mais homenagens de despedidas foram feitas e os corpos sepultados.

*Quando está reportagem estava sendo finalizada, o Site euclidesdacunha.com recebeu a informação que Orlando Mota, condutor do ônibus, que se encontrava internado na UTI do Hospital Clériston Andrade, depois de passar por delicado procedimento cirúrgico de amputação das pernas, não resistiu aos ferimentos e veio a óbito.

Fundador do grupo

O forró pé de serra, sanfoneiros, zabumbeiros, triangueiros, vocalistas, admiradores desta nobre arte musical autenticamente sertaneja nordestina de raiz, em Euclides da Cunha, especialmente, perderam o seu maior incentivador. A passagem de Marcos Brito (Marcão) para o plano superior, fundador do grupo Forró do Cumbe, que animou muitas festas e apresentações em bares e restaurantes de Euclides da Cunha e região, juntamente com Paulo Sanfoneiro, Toínho de Bina, Junior, Marcos, mestre Cesário do Acordeom, Romero Silva, Vaninho San, Rato Branco, Raimundo do Belo, Barão, Zé de Loura, Zé de Cirilo, Ivan Silva, Henrique pernambucano, Arthur Reis, Gradival, Catarino & Forró Arrumadinho, Juracy e Laiane (Festa do Sítio), além do parceiro e amigo Dadá, entre outros. Fanático pelas coisas do sertão, Marcão criou identidade própria ao adotar o chapéu de couro, peça importante e indispensável do vaqueiro e do homem nordestino do campo, da caatinga, para si próprio e para o seu grupo musical Forró do Cumbe.

Marcão, como era carinhosamente chamado pelos seus queridos amigos, entre eles, este repórter, era, além de músico percussionista, cantor e compositor, desenvolvia projetos sociais, artísticos e educativos com crianças e jovens em estabelecimentos de ensino de Euclides da Cunha. Agora, tudo é saudade dos bons momentos de forró pé de serra regado à “pimentinha rosa”, uma espécie de cachacinha pura de alambique, preparada caprichosamente pelo amigo Dadá, um grande defensor do forró de raiz , então proprietário do Restaurante Bamba Fast Food, que cedeu espaço para que Marcão e o Forró do Cumbe pudesse se apresentar aos sábados, além de convidar artistas, músicos instrumentistas, percussionistas e intérpretes de forró, com objetivo único de manter viva essa tradição cultural e artística autenticamente nordestina sertaneja. (Fonte: site euclidesdacunha.com.br).

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