Política

Bolsonaro intervém nos três órgãos principais de combate à corrupção no país

Nos últimos dois meses, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) interferiu diretamente nos três principais órgãos de combate à corrupção no País, que de alguma forma cruzaram o caminho de sua família — a Polícia Federal, a Receita Federal e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Sempre alegando que quem manda é ele, Bolsonaro já admitiu que em alguns episódios agiu para defender familiares.

Bolsonaro não está sendo transparente sobre corrupção (Foto: Alan Santos/PR)

As investigações mais importantes da PF do Rio envolvem a relação de milícias com políticos estaduais e a chamada “rachadinha”, prática em que servidores repassavam parte dos salários aos parlamentares e que atingiu um ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ).

Interlocutores do presidente acusam Saadi de não impedir desmandos nas investigações a Flávio. No Planalto o delegado é acusado de fazer “corpo mole” e deixar o inquérito avançar sem provas.

Em atitude inédita para um presidente, Bolsonaro anunciou que para a vaga de Saadi iria o delegado Alexandre Saraiva, atual superintendente da PF no Amazonas, um amigo da família. A tentativa de interferência levou o comando a PF a encurralar o ministro da Justiça, Sergio Moro, a quem a instituição está subordinada.

Ao longo do dia de ontem, Moro foi avisado que perderia o controle da corporação caso cedesse ao apelo de Bolsonaro. A crise só arrefeceu após o presidente declarar que aceita nomear o delegado Carlos Henrique Oliveira Sousa, superintendente da PF em Pernambuco, para a vaga. A reportagem apurou que o recuo atendeu a um pedido de Moro. No final, o presidente conseguiu o que queria — tirar Saadi — e Moro ficou bem com a PF.

O presidente tem a prerrogativa de vetar qualquer nome indicado pela PF para ocupar cargos de chefia. A escolha, porém, parte do diretor-geral do órgão para evitar interferência política. O superintendente tem o poder de designar os delegados que vão tocar as investigações.

Na Receita Federal, a crise também se agravou depois que o Bolsonaro determinou a substituição do superintendente do órgão no Rio, Mário Dehon, e dos delegados da Receita no Porto de Itaguaí (RJ), José Alex Nobrega de Oliveira, e o da Barra da Tijuca, Fábio Cardoso do Amaral, no rastro de pressão da cúpula do STF, que foi alvo de investigações.

Bolsonaro determinou a substituição do superintendente do órgão no Rio

“Fizeram uma devassa na vida financeira dos meus familiares do Vale do Ribeira”, disse Bolsonaro em entrevista na última quinta-feira, 15. A reportagem apurou que um dos irmãos do presidente, Renato Antonio Bolsonaro, recebeu um aviso de cobrança da Receita de R$ 1.682. O débito relativo ao e-social de empregada doméstica já foi regularizado.

Assim como a PF, a Superintendência da Receita no Rio também apura ilícitos praticados por milícias em operações no Porto de Itaguaí. O secretário especial da Receita, Marcos Cintra, sugeriu informalmente que o delegado de Itaguaí fosse substituído por um nome indicado pela família Bolsonaro. Dehon, que está com o cargo ameaçado, não aceitou fazer a indicação.

A troca na PF do Rio ainda não foi efetivada, mas Bolsonaro declarou: “Se tiver que mudar a Receita Federal no Rio será mudado”. No caso da PF, foi até mais enfático: “Se ele (Moro) resolveu mudar vai ter que falar comigo. Quem manda sou eu.” (Agência Estado).

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