Cultura

Natal é uma festa que devia ser atualizada ao contrário e voltar aos anos 60

Vê agora por que os livros são tão odiados e temidos? Eles mostram os poros no rosto da vida. As pessoas acomodadas só querem rostos de cera, sem poros, sem pelos, sem expressão (Ray Bradbury, no livro Fahrenheit 451)

Charge do Ivan Cabral (ivancabral.com)

Bimbalham os sinos, está chegando o Natal. Será que famílias e amigos se recuperaram da implosão do ano passado, o Natal do racha? Quem quiser, pode consultar o diário de bordo da época, e verá a enciclopédia de insultos, provocações, malquereres e bufares coléricos. O período eleitoral provocou lesões que invadiram as mesas familiares e sentaram ao lado de nozes e pernis. Não sei se serão curáveis.

Antes de continuar, e embora reconheça que a divisão atual, na dimensão em que se apresenta, parece não ter precedentes, quero lembrar que paixões que descambam para a porrada não são novidade.

DIZIA MÁRIO LAGO – Em suas memórias, Mário Lago conta que o envolvimento com os clubes de carnaval no Rio, nas primeiras décadas do século passado, podia resultar em agressão e morte. Uma festa, ora vejam só, podia ser o prelúdio de pancadaria.

Ator Mario Lago

“O fanatismo clubístico”, recorda Mário, “desfez muitas amizades velhas e sólidas. Não foram poucas as brigas que terminaram em morte por causa da birra entre Democráticos, Fenianos e Tenentes do Diabo”. Sua família, completa, torcia pelos Fenianos “até as últimas consequências”. Estava lá o brasileiro cordial em toda a sua pujança …

Claro que tudo ganha proporções trágicas nas redes sociais, abrigos de catarses e propagadoras de ódios. Já me surpreendi com um pano na mão, tentando limpar o sangue virtual que jorrava do monitor.

PESSOA FELIZ – Um amigo, com quem me encontro para falar sobre música e vida, não necessariamente nesta ordem, radicalizou. Não tem computador, celular, cartões de crédito e débito. Se quer ouvir música, escolhe um CD. Notícias? Lê jornais, lê livros. É uma pessoa feliz, não sente a menor falta da Terceira Revolução Industrial. Só lhe faço um reparo. Quando quero encontrá-lo, me comunico por pombo-correio ou sinais de fumaça. Nem sempre é fácil achar as aves especializadas ou fazer uma fogueira sem alarmar os vizinhos. Mas, como diziam Chico e Caetano, a gente vai levando.

Compreendo a alergia do meu amigo. Recentemente, fui atacado por um hacker. Num inglês alfabetizado, tentou me chantagear. Disse que tinha gravado algumas imagens minhas (!) e as usaria para produzir um filme “comprometedor”, que enviaria para meus e-mails. Dizer que fiquei tranquilo seria mentira. Tinha lido recentemente sobre deep fakes, mecanismo que produz imagens fantasiosas, mas com aparência real. Bem, ignorei a ameaça e nada aconteceu até agora. Perder tempo com essas bobagens, e outras mais “amenas”, é um custo pesado.

MUNDO VIRTUAL – Não quero entrar na interminável discussão sobre as vantagens e desvantagens do mundo virtual. Tenho uma pata e muitos neurônios fincados no século XIX e não pretendo me desfazer deles. Já os chamados Millenials, a turma que nasceu a partir dos anos 90, não tem ideia do que é estar desconectado.

Nada contra ter acesso amplo às informações, com o devido cuidado com as fontes, mas conservo uma dúvida prudente sobre a aceleração da vida. Quanta gente, habituada a tuites e sínteses apressadas, se dispõe a ler textos mais elaborados, que demandam mais de 30 segundos de atenção? E ouvir músicas refinadas, que exigem introspecção? O que projetar para o mundo intelectual de crianças habituadas a entregar seu tempo a jogos eletrônicos? Não acho à toa que tem diminuído o número de municípios brasileiros com, pelo menos, uma livraria (eram 42,7% em 2001, caíram para 17,7% em 2018).

MUNDO NOVO – Já existem equipamentos no varejo que identificam as preferências dos clientes assim que eles entram na loja (machine learning). Quem viu Minority Report, do Spielberg, há de lembrar de uma cena em que o personagem entra num shopping e uma voz gravada o saúda pelo nome (leitura facial acoplada com reprodução de voz). Pois bem, já imaginaram o tédio de entrar numa livraria e um robô, identificando teu “perfil”, te encaminhar direto para uma seção? A excitação da descoberta acidental, prazer de qualquer frequentador de livrarias, desapareceria. Quantos passos mais até dissolver a privacidade?

O melhor que posso desejar é que o próximo Natal seja desconectado. Que ninguém consulte celulares entre o peru e a rabanada. Que as questões que aproximam superem as que afastam e criam conflitos. Que a presença seja prioridade e, na falta dela, se use o velho Graham Bell: o vício em zaps esfria e distância. Pensando bem, meu desejo é uma volta parcial no tempo. Não precisa ser ao século dezenove, esse deixem comigo, mas anos 60 já seria um avanço.

(artigo enviado por Mário Assis Causanilhas)/ Jacques Gruman/Carta Maior

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