História

Brasília completa mais 1 ano; na inauguração, Juscelino agradece aos ‘candangos’ e abraça Riachão

Neste 21 de abril de 2020, Brasília completa mais um ano de vida. A matéria abaixo, extraída do Correio Braziliense, e publicada em 22 de abril de 1960, traz uma narrativa focada em Juscelino Kubitschek, então Presidente da República e fundador da nova capital federal.

Foto aérea feita de drone do Memorial JK durante o por do sol. (Breno Fortes/CB/D.A. Press)

Diz o seu último parágrafo: “O discurso de Juscelino foi dedicado especialmente aos candangos, os homens que, no seu entender, foram os verdadeiros heróis de Brasília… Em certo trecho, disse o presidente, falando diretamente aos trabalhadores: Reconheço e proclamo, neste momento, que foi expressão da força propulsora do Brasil”.

Aquelas palavras de Juscelino foram marcantes para os jacuipenses Raimundo Ferreira de Oliveira (Mundinho) e Nestor Quirino Ferreira (Seu Nelson do Bar), que fizeram parte dessa história, já que estavam no grupo de operários que ajudou a construir a nova capital federal projetada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.

Eles foram “candangos”, como eram chamados os que chegaram para trabalhar na construção de Brasília, especialmente os oriundos da região Nordeste do País. “Para mim é uma satisfação muito grande. É motivo de orgulho ter trabalhado numa obra tão importante”, disse Seu Nelson em entrevista ao Jornal da Manhã, da Rádio Jacuípe, em 2016.

‘Candangos’ na construção de Brasília: jacuipenses ajudaram (Acervo: Planalto)

Naquela oportunidade, Seu Nelson, que hoje vive como aposentado em Riachão do Jacuípe, também revelou como foi a vigem para capital federal. “Foi um primo meu que estava aqui e me chamou para ir para lá, eu e meu irmão Mundinho. Nós pegamos um trem em Jacobina, passamos em Montes Claros e paramos em Belo Horizonte. De lá nós fomos de ônibus até Brasília”, lembrou.

Enfim, feito esse importante registro aos jacuipenses, agora voltemos para a matéria do Correio Braziliense:

Profundamente emocionado, mas sempre sorridente e acenando para os populares que lhe proporcionaram uma das maiores ovações, o presidente Juscelino Kubitschek, acompanhado de sua esposa, sra. Sarah Kubitscheck, de suas filhas, Marcia e Maristela, e do sr. João Goulart e senhora, chegou, ontem, precisamente às 17h28, à Praça dos Três Poderes, a fim de receber das mãos do sr. Israel Pinheiro, primeiro prefeito da nova capital, as chaves da cidade.

Ato de inauguração, Juscelino ao lado de autoridades (Foto: Acervo O Globo)

À chegada do presidente, a multidão que se comprimia junto aos cordões de isolamento prorrompeu em aplausos. A esta altura, o sr. Juscelino Kubitschek de Oliveira estava profundamente emocionado, contendo as lágrimas a muito custo.

Grande cortejo

Um grande cortejo acompanhou o presidente até o Palácio do Planalto. Algumas horas antes, soldados da Polícia do Exército se postaram nas ruas por onde passaria a comitiva oficial, impedindo o trânsito.

Presidente Juscelino chega para a inauguração de Brasília (Foto: Thomaz Farkas)

Apesar de todas as providências, não puderam os policiais impedir que numerosos carros estranhos se incorporassem ao cortejo, o que provocou o atraso presidencial de quase trinta minutos.

Aviões da Força Aérea Brasileira, de vários tipos, desde os de transporte até a Esquadrilha da Fumaça, faziam evoluções sobre a Praça dos Três Poderes, dando ainda mais beleza ao espetáculo. Ao escurecer, soltaram os aviões fumaças coloridas, realizando evoluções ainda mais perigosas, o que arrancou aplausos da numerosa assistência presente à solenidade.

A Praça dos Três Poderes apresentava um aspecto alegre. Centenas de carros conduziam flâmulas e cartazes. Gritos e aplausos se sucediam de instante a instante, enquanto o sr. Juscelino Kubitschek e seus acompanhantes subiam a majestosa rampa do Palácio do Planalto.

Já a esta altura era o sr. Juscelino Kubitschek acompanhado pelo sr. Israel Pinheiro. A multidão, tomada de entusiasmo, prosseguia no seu coro de vivas a Juscelino e este, cada vez mais emocionado, acenava para o povo e apertava a mão dos que estavam mais próximos.

A entrega da chave

A entrega da chave, às 17h40, foi, em si, uma cerimônia rápida. Em meio a seu discurso, o sr. Israel Pinheiro fez uma ligeira pausa, tirou um bonito estojo azul do bolso, e dele retirou a chave.

Vista aérea da Praça dos Três Poderes, tendo ao fundo o prédio do Congresso Nacional e a Esplanada dos Ministérios durante a inauguração de Brasília, imagem do livro Brasília, de Lina Kim e Michael Wesely. (21/04/1960. Crédito: Coleção Pedro Mattoso/Reprodução).

Estava, porém, emocionado e teve dificuldades em segurá-la, sendo auxiliado pela filha do presidente, Márcia. O sr. Juscelino Kubitschek percebeu o pequeno embaraço e sorriu ligeiramente, passando a mão, afetuosamente, pelos cabelos da filha.

Em seu discurso, Israel Pinheiro louvou a ação do presidente Juscelino e disse das dificuldades encontradas para mudar a mentalidade conformista do povo brasileiro. Brasília foi o primeiro passo para tal.

Logo que recebeu a chave, durante a interrupção do discurso do sr. Israel Pinheiro, o presidente da República elevou-a a fim de que a multidão que ali se aglomerava a visse. Depois, baixou o braço. Porém, sempre simpático, e atendendo ao apelo dos fotógrafos, elevou-a mais uma ou duas vezes.

Juscelino preocupado

Durante todo o tempo do discurso do sr. Israel Pinheiro, o sr. Juscelino Kubitschek, apesar de manter um sorriso nos lábios, demonstrava grande preocupação. Olhava constantemente o relógio e, de cada vez, denotava maior impaciência.

O motivo da preocupação do sr. Juscelino Kubitschek foi rapidamente explicado: tinha que estar às 19h no aeroporto, a fim de receber o cardeal Cerejeira, e temia se atrasar, já que o cerimonial do Vaticano é ainda mais rigoroso do que o da própria Inglaterra.

O segundo orador foi o sr. Everaldo Queiroz, que falou em nome dos trabalhadores de Brasília.

Discurso do presidente

O discurso do presidente foi dedicado especialmente aos candangos, os homens, que no seu entender, foram os verdadeiros heróis de Brasília.

Discurso de Juscelino na inauguração da nova capital federal (Foto: Acervo Alvorada)

Em certo trecho de sua oração, disse o presidente, falando diretamente aos trabalhadores: “Reconheço e proclamo, neste momento, que foi expressão da força propulsora do Brasil”.

Terminado o seu discurso, o presidente despediu-se rapidamente do sr. Israel Pinheiro e dirigiu-se para o aeroporto.

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