Cultura

Com 50 anos: ‘Missa do Vaqueiro’ é realizada sem público pela 1ª vez

A música “A morte do vaqueiro”, de Luiz Gonzaga, criada para lembrar a morte de seu primo, Raimundo Jacó, assassinado no dia 8 de julho de 1954, foi imortalizada no LP “Pisa no Pilão (Festa do Milho)”, de 1963.

Missa este ano foi sem público por conta da Covid-19 (Foto: Fundação Padre João Câncio)

Sete anos depois, o “Rei do Baião” voltou a homenageá-lo criando, junto com o padre João Câncio, a Missa do Vaqueiro, em Serrita (PE), uma das mais belas festas o sertão nordestino. Este ano, o evento completou meio século e, com a pandemia da Covid-19, a tradição de reunir centenas de vaqueiros foi interrompida. Uma celebração simbólica marcou os 50 anos da festa.  

A ideia de criar a Missa do Vaqueiro surgiu em 1969, a partir do padre João Câncio. Inspirado pela canção “A Morte do Vaqueiro”, convidou o ‘velho Lua’ para criar o evento em homenagem ao primo. A primeira edição aconteceu no dia 18 de julho de 1970 e, desde então, a cerimônia litúrgica é realizada anualmente no quarto domingo do mês. Ano passado, reuniu aproximadamente 70 mil pessoas.

Tradição

Da região do Cariri cearense, centenas de vaqueiros viajam, em grupo, para homenagear Raimundo Jacó e, de certa forma, sua própria profissão. Todos de gibão, chapéu de couro e perneira, como se vestem tradicionalmente. A missa contém muitos ressignificados, sobretudo, da cultura sertaneja. A hóstia, é substituída pela farinha, rapadura e queijo, comida comum nos seus alforjes. 

A festa reúne vaqueiros e gente de várias regiões do Nordeste (Foto: Diário de Pernambuco)

“É uma tradição. Depois que fui uma vez, não deixo de ir nunca mais. A gente encontra aquela vaqueirama para falar da festa, lembrar a morte de Raimundo Jacó, que foi morto de forma covarde, traiçoeira. É um momento de emoção para todos nós”, explica o vaqueiro do Crato, Raimundo Procópio, que foi já foi ao evento cinco vezes.  

Seu plano e de centenas de vaqueiros de participar da festa foi interrompido pela pandemia da Covid-19. Geralmente, viajam de carro e levam consigo seus cavalos, enquanto outros fazem o caminho no próprio lombo do animal, levando horas para chegar ao Parque João Câncio, onde acontece a festa.  “É vaqueiro de tudo que é canto. Infelizmente aconteceu essa doença. É muito difícil. Deus não quis, mas ano que vem vamos estar lá”, garante Procópio. 

Mudança de planos

A edição de 50 anos, aguardada há um bom tempo, inicialmente seria adiada para novembro, por conta da importância de se realizar ainda em 2020. Com o avanço do coronavírus, o evento foi cancelado. “A gente chegou a divulgar, mas não pensava que a pandemia fosse se estender por tanto tempo. Hoje nem se cogita (realizar em 2020). Foi descartado completamente”, conta Helena Câncio, presidente da Fundação Padre João Câncio, que organiza o evento.  

A celebração deste ano foi diferente de uma tradição de 50 anos

A Diocese de Salgueiro, sob o comando do bispo Dom Magnus Henrique, e a Fundação, prepararam uma peça musical Rezas do Sol com artistas que gentilmente de suas casas realizaram uma homenagem à festa, exibida no YouTube.

Junto com a Paróquia de Serrita, a Diocese também decidiu, ainda no sábado, realizar uma celebração no local que Raimundo Jacó morreu, sem ser divulgado, para não gerar aglomeração. “Foi feita para não perder a tradição, mas a gente não planeja mais nenhum evento para este ano. A pandemia está cada vez mais forte. Queremos focar no próximo ano”, ressalta Helena.  

A Missa do Vaqueiro movimenta a região a partir da sexta-feira. As pessoas lotam hotéis e pousadas em Granito, Moreilândia, Exu e Salgueiro. A passagens de visitantes também acontece pelo Cariri cearense. “Já uma movimentação em função de Luiz Gonzaga. Quem vem de avião, se hospeda em Juazeiro do Norte e segue de carro”, conta a organizadora do evento.  

Os vaqueiros, claro, são os protagonistas. Uma estrutura é toda montada para recebê-los, incluindo a tradicional pega de boi, que chega a 500 inscrições, e a vaquejada no Parque João Câncio. A estimativa é de 1.500 profissionais reunidos. O evento também mantém costumes tradicionais, como a valorização do forró pé de serra, o xote e o baião. A missa continua seguindo fielmente ao projeto, com a partilha dos alimentos no ritual da comunhão e a entrega das indumentárias.

“Foi com muita tristeza que lidamos com o cancelamento, mas Dom Magnus fez uma referência a primeira e segunda missas, que foi no mesmo lugar, com pouca gente. Nessa faltou público, o abraço, o calor humano, mas cumprimos com um ritual. A tradição não foi quebrada em homenagem aos vaqueiros”, enfatiza Helena Câncio.   

Raimundo Jacó 

“Morto pela inveja”, como narra o poeta e repentista Pedro Bandeira, a história de Raimundo Jacó se tornou popular na voz de Luiz Gonzaga, em “A Morte do Vaqueiro”. Seu parceiro de composição, Nelson Barbalho, narra que o Rei do Baião tentou muitas vezes, no estúdio, cantar a canção, mas sempre chorava durante as gravações. Um dia, ele conseguiu e a imortalizou no LP “Pisa no Pilão (Festa do Milho), de 1963. Um baião-toada que lembra os aboios do seu primo.  

Não é à toa que Raimundo Jacó também era conhecido como Raimundo Aboiador ou Raimundo Doido. Ele era muito respeitado por sua voz ao tanger e atrair o gado, além de sua habilidade em capturar o animal fugido. No Crato e em Juazeiro do Norte, o vaqueiro gostava de beber e arrumar confusão, mas era querido por todos.  

Seu companheiro fiel, um cachorro chamado Brasileiro, esteve ao seu lado até o fim de sua vida e após a sua morte. O vaqueiro foi encontrado morto com uma pancada na cabeça e seu cão permaneceu no seu túmulo, onde também morreu. “Ninguém aboiava bonito como ele. Quando ele começava a aboiar, o gado chegava perto”, conta Pedro Bandeira. (Fonte: Diário do Nordeste).

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