Economia

Umbu transforma região de Canudos e conquista europeus

Produtos processados da Coopercuc têm certificação orgânica, selo de Comércio Justo, rótulo com iconografias da região da caatinga e variedade de frutas.

A Guerra de Canudos imortalizou Antônio Conselheiro e o semi-árido baiano. Agora, um grupo de mulheres corajosas está ajudando a região de Canudos a ser conhecida no Brasil e no exterior por sua produção de frutas processadas. Elas enfrentaram o preconceito dos maridos e saíram detrás dos fogões para as cozinhas industriais.

A Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc) conta com 141 cooperados, envolvendo mais de 300 pessoas, a maioria mulheres, de 16 comunidades da região. O lema lá é produzir com qualidade e alto valor agregado.

O carro-chefe é uma fruta ainda pouco conhecida das regiões Sul e Sudeste do País, mas que já está na mesa de austríacos, italianos e franceses: o umbu, riquíssimo em vitamina C. Ele cresce na caatinga, a vegetação típica do sertão nordestino. Em tupi-guarani “y-mbu” quer dizer ‘árvore que dá de beber’.

As raízes do umbuzeiro são depósitos de água e foram usadas como estratégia de resistência na Guerra de Canudos. O escritor Euclides da Cunha o chamava de “árvore sagrada do Sertão”. A maioria das árvores de umbu tem mais de 100 anos. Para dar os primeiros frutos ela leva de 15 a 20 anos. “As árvores enxertadas levam menos tempo”, explica Jussara Souza, gerente comercial da cooperativa.

Cada umbu em fase adulta pode produzir até 300 quilos entre os meses de dezembro e abril. Segundo Jussara, na região há em média 12 pés de umbu por hectare. Além do umbu, a cooperativa também processa maracujá nativo (por dentro é branco), maracujá, banana, goiaba e manga.

Toda a produção de compotas, doces e geléias tem certificação orgânica e selo do Fair Trade (Comércio Justo). Os rótulos, desenvolvidos por designers, têm símbolos iconográficos das casas do semi-árido baiano. A diversidade de frutas permite aos cooperados produzirem durante todo o ano. “Quando termina a safra de uma fruta, começa logo a outra. Ninguém fica esperando parado”, explica a gerente da cooperativa.

Este trabalho bem desenvolvido pela cooperativa está ajudando as famílias cooperadas a conseguirem pelo menos 30% a mais de renda por mês. De acordo com Jussara, a maioria das mulheres não tinha renda nenhuma e os maridos viviam da criação de bodes, principal atividade econômica da região. “Agora elas trazem para casa pelo menos um salário mínimo por mês. E muitos homens já fazem parte deste negócio, mexendo o tacho dos doces”, brinca Jussara.

A preservação ambiental é outra preocupação da cooperativa. “Antigamente, o umbu, por exemplo, era colhido de forma inadequada e agressiva, batendo-se no tronco da árvore, podendo secá-la”. Hoje, eles retiram o umbu de forma sustentável.

Exemplo para muitos grupos espalhados pelo Nordeste, a Coopercuc vem ajudando outras cooperativas na estratégia de boas práticas de produção.

Mercado nacional

A cooperativa processa atualmente 160 toneladas de produtos por ano, mas tem capacidade de até 250 toneladas. São 13 mini-fábricas espalhadas pela região de Canudos e uma fábrica central. O objetivo agora é chegar com seus produtos em todo o território nacional.

Para isso, a Coopercuc vem participando de feiras como a Fruit & Log, que termina nesta quinta-feira (10) em São Paulo. A cooperativa está no estande coletivo do Sebrae, que apóia 35 empresas de sete Estados brasileiros. Além disso, os baianos participam também da Rede Sabor Natural do Sertão com o objetivo de formar uma central de distribuição dos produtos.

“Nosso gargalo tem sido a logística, mas estamos estudando a melhor forma de distribuição do nosso produto”, diz Jussara. Cerca de 65% da produção da cooperativa é vendida para a Conab para distribuição na merenda escolar. São 85 mil alunos beneficiados com os produtos da cooperativa. Os outros 25% são comercializados pelo Comércio Justo, em vários países. O restante vai para pequenas delicatessens no Nordeste.

“Estamos agora conversando com o Empório Chiapetta, em São Paulo, e acreditamos que logo, logo nossos doces estarão no mercado do Sudeste”, acredita a gerente.

Da Agência Sebrae de Notícias

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