Cultura

Historiador Roberto Dantas: “Breves reflexões sobre os junhos baianos”

Tenho acompanhado, nos últimos anos, as ações e os discursos envidados especialmente pelos representantes da Secretaria do Turismo do Estado da Bahia e, do mesmo modo, por outros gestores vinculados à esfera administrativa do governo, atinentes a sua atuação e aos objetivos no que respeita ao dito “resgate e revitalização dos festejos juninos na Bahia”.

Ações e discursos que preocupam, pois que, no meu humilde entendimento, resultantes de uma política institucional equivocada, mais particularmente para o sertão da Bahia, recanto privilegiado das mais expressivas manifestações culturais populares. Quem conhece o sertão, a sua rica cultura e fervorosa religiosidade, bem sabe do grande significado do mês de junho para o sertanejo. Bom ressaltar que não apenas o Santo das fogueiras é celebrado, mas, igualmente, reverenciados são os Santos Antônio e Pedro!

Em primeiro lugar, penso que “resgate” (termo tantas vezes utilizado pelos representantes do referido órgão) não seja a mais apropriada expressão para tratar o assunto. Em segundo, tem se resgatado exatamente o quê? O forró de raiz gonzaguiana e do qual tivemos o saudoso Dominguinhos como qualificado e resistente propagador? Não, pois o que mais incomoda e atemoriza, razão do que já se testemunhou em algumas cidades, é a invasão de estilos e ritmos, priorizados e pomposamente financiados pelo dinheiro público, que nada traduzem ou contribuem para a justa valorização e a conseqüente visibilidade das genuínas expressões da cultura popular atrelada aos ditos festejos.

Sem critérios pertinentes ou mínima identidade no que concerne ao tema dos festejos juninos, os espaços e palcos têm sido ocupados pelos grupos e “estrelas” dos axés, pagodes, arrochas e dos “pseudo-forrós” – bandas de qualidades musicais tão duvidosas, quanto, também, descartáveis pelos apelos sexuais exibidos sob uma parafernália de sons e luzes! -, de forma agressiva porque majoritária, e que percebem os melhores cachês, resultando a inaceitável e revoltante exclusão dos cantadores e compositores sertanejos, dos sanfoneiros, dos tocadores de pé-de-bode e de pífaros, dos zabumbeiros, das quadrilhas juninas, etc.! Contraditoriamente, estes últimos que deveriam ser os mais solicitados e valorizados, quando contratados, a eles são reservados os horários de menor ocorrência de público e dedicados os mais reles pagamentos pelos seus qualificados trabalhos. Ou seja, tem havido uma injusta inversão de valores! Reflexão: alguma “coincidência” com o longo histórico das contratações e com as famosas “grades” da programação oficial do grande entrudo soteropolitano de fevereiro?

Recentemente, apenas para citar um exemplo, causou-me indignação o desabafo de um grande mestre cantador da cultura popular sertaneja que, triste e revoltado, assim traduziu a sua desdita: “tive pouco tempo para tocar meu professor! Me apresentei acuado entre bandas!”. Inteligente trocadilho (o grifo é para ressaltar mesmo!) que claramente traduz as contradições aqui apresentadas e que carecem, efetivamente, de imediata reação. Como se fosse um “enchimento de lingüiça”, assim se sentiu o compositor e cantador do sertão, o querido Mestre Cavachão de Uauá, quando de sua apresentação “the flash” em sua própria cidade! Eis a preocupante realidade: entre as suntuosas apresentações das bandas “famosas” – cujos dançarinos mais encenam exercícios aeróbicos, coreografias sexuais dispensáveis e malabarismos circenses de mau gosto e cujos cantores mais gritam desafinados do que propriamente cantam -, timidamente e sob inaceitáveis pressões se apresentam os cantadores e músicos do cancioneiro popular sertanejo.

Tenho plena consciência de que a cultura é dinâmica, plural, naturalmente renovadora nos seus passos e inovadora nas suas criações, que jovens artistas e suas produções rítmicas diferenciadas surjam e, conseqüentemente, enriqueçam o cenário cultural, considerando-se, inclusive, a propalada, porém pouco entendida e pouco respeitada, diversidade cultural baiana. Mais aceitável ainda que o “dito moderno” conviva com o “dito tradicional”. Cultura sempre foi e será movimento! Mas há de se ter cuidado, critério e, sobretudo, respeito com a cultura popular e com os seus qualificados e resistentes artistas! Novas reflexões: desde quando “madeirada”, “sobe e desce mainha”, “chicletes”, “sofrências” e demais expressões musicais dessa natureza integram a cultura junina? E o que está por trás dessa mesmíssima parafernália sonora ao invadir o São João da Bahia nos seus recantos mais festivos e tradicionais?

Portanto, a infeliz conjunção do desconhecimento e desrespeito pelas tradições culturais com a demagogia que esconde ambiciosos e oportunistas interesses imediatistas, tanto dos setores privados (inclua-se, aqui, boa parte dos poderosos canais midiáticos), quanto de algumas autoridades públicas então constituídas, têm, na real, contribuído para este quadro inaceitável que hoje se pinta nos junhos baianos.

Roberto Dantas – Historiador/Documentarista

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