Esporte

Cruzeiro cai para a Série B e Mineirão vira palco de guerra

O milagre não aconteceu. O que parecia praticamente impossível, se tornou realidade. Na última rodada do Campeonato Brasileiro, o Cruzeiro foi derrotado pelo Palmeiras por 2 a 0, gols de Zé Rafael e Dudu, viu o Ceará, adversário direto na luta contra o rebaixamento, empatar em 1 a 1 com o Botafogo no Rio de Janeiro e, com isso, deus “até logo” à competição mais importante do país.

A torcida acreditou até o último jogo, mas saiu decepcionada do Mineirão

Apesar do domínio da equipe paulista no primeiro tempo, no duelo disputado neste domingo (8), no Mineirão, a Raposa teve um pingo de esperança quando Marcos Vinícius, ex-jogador do clube celeste, balançou a rede para o Botafogo no Nilton Santos e jogou ducha fria nas pretensões do Ceará, comandado pelo técnico Argel.

Contudo, como fez na maior parte da competição, a equipe não fez o próprio dever e assistiu o Palmeiras balançar a rede duas vezes, com Zé Rafael e Dudu – o baixinho, inclusive, aplicou a famosa “Lei do Ex” -, e assinar o rebaixamento.

A equipe lutou, mas não suportou a pressão psicológica, que foi fundamental para a queda

Com 36 pontos, a Raposa deu adeus à elite nacional. O Ceará, com 39, ficou com a vaga tão disputada. Com o resultado, os torcedores do Cruzeiro protagonizaram cenas de selvageria no Gigante. Com bombas e cadeiras quebradas, um cenário de guerra foi visto no principal palco do futebol mineiro. 

Torcedores brigaram e protestaram muito diante da apatia do time em campo

Com o clima de insegurança e objetos sendo atirados no gramado, o árbitro Marcelo de Lima Henrique encerrou a partida antes dos 45 minutos.

Zezé Perrella: “Como o dia da morte dos pais”

“A última vez que eu fiquei tão triste assim foi quando perdi meu pai e minha mãe”. Foi assim que Zezé Perrella, executivo de futebol do Cruzeiro, traduziu a queda da Raposa para a Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro.

Zezé Perrella, no centro, assumiu o futebol, mas o barco já estava afundando

“Queria ser campeões de tudo e não pensaram nos riscos. A conta chegou. Entrei sabendo da situação financeira difícil, mas tive a coragem, assim como tenho de agora estar agora dando as explicações”, desabafou Zezé.

“Sempre tentei acertar. Nunca pequei por omissão. Tentei fazer alguma coisa para salvar, mas não conseguimos. O Cruzeiro acabou caindo. Que seja um aprendizado para que não cometamos novamente”, acrescentou.

A 871ª partida de Fábio é marcada como a maior decepção em sua história pelo Cruzeiro

Ainda sobre a queda, Perrella tomou Internacional e Corinthians como exemplo para um retorno próspero e forte do Cruzeiro.

“Já vimos clubes grandes caindo, voltando e sendo campeões do mundo. Reviram tudo na Segunda Divisão e recomeçaram. A dor é forte demais”, finalizou.

Os culpados

Dentro das quatro linhas, um time por vezes sem alma e desorganizado, que teve quatro técnicos na temporada e acumulou fracassos em sequência. Nos bastidores, uma diretoria que manchou a imagem do clube ao se envolver em sérias acusações de corrupção, lavagem de dinheiro e atitudes antiéticas que envergonham o torcedor. O elo entre esses dois aspectos fez com que o multicampeão Cruzeiro vivesse a fase mais dramática de seus quase 99 anos de fundação.

Torcedores brigaram entre si dentro e fora do Mineirão após a queda do clube

Um dos clubes mais tradicionais e vencedores do país, formador de craques que brilharam com a camisa da Seleção Brasileira, a Raposa chega ao último jogo de 2019 com a obrigação de vitória sobre o Palmeiras neste domingo, às 16h, no Mineirão, e contar com derrota do Ceará para o Botafogo, no mesmo horário, para não amargar o primeiro rebaixamento de sua história.

O torcedor celeste que sofre com o momento não tem dúvida de que o abismo é fruto do caos que surgiu no âmbito extracampo. Há pouco mais de um ano, essa mesma diretoria e os jogadores comemoravam em São Paulo, depois de vitória por 2 a 1 sobre o Corinthians, o hexacampeonato da Copa do Brasil. A equipe iniciou a atual temporada com sonhos ainda mais ambiciosos, porém, sofreu uma reviravolta que a tirou dos trilhos. Mas como essa crise começou a abalar um time que podia ser considerado um dos mais fortes do Brasil?

Presidente Wagner Pires de Sá: dívidas, acusação de corrupção e fracassos dentro de campo

A resposta pode estar na própria eleição de Wagner Pires de Sá como presidente para o triênio 2018-2020, com apoio do antecessor Gilvan de Pinho Tavares. O pleito ocorreu em ambiente pesado, com troca de farpas entre o presidente eleito e o candidato da oposição e derrotado, Sérgio Rodrigues. Ao assumir, Wagner nomeou como vice-presidente de futebol o ex-dirigente do Ipatinga Itair Machado, o que não foi bem digerido pelo grupo de Gilvan. A chapa vencedora imediatamente rompeu com o ex-presidente.

Wagner deu amplos poderes a Itair e ainda levou para o clube o comentarista esportivo Sérgio Nonato, sem qualquer experiência em gestão de futebol, para ocupar o recém-criado cargo de diretor-geral. Além disso, aumentou os gastos com a contratação de atletas com salários altos, casos do lateral-direito Edilson, do volante Bruno Silva e dos atacantes Fred e David. No campo, a administração, já com indícios de estrangulamento da receita, teve sucesso com o título da Copa do Brasil, garantindo premiação de mais de R$ 60 milhões – boa parte foi partilhada como bicho entre diretores, jogadores e funcionários.

Diretor Itair Machado: o maior culpado, foi afastado após forte pressão da tarcida, acusado de obter vantagens na venda de jogadores e expor o clube na imprensa e nos tribunais

Em 2019, os gastos novamente foram grandes. Apesar da venda do uruguaio De Arrascaeta para o Flamengo por R$ 58 milhões, a cúpula continuou a esbanjar, principalmente com os altos salários dos diretores (entre eles, Itair, R$ 180 mil, e Sergio Nonato, R$ 125 mil) e reforços caros, como Rodriguinho e Pedro Rocha. Em nenhum momento houve readequação financeira. Pelo contrário, o Cruzeiro antecipou cotas de TV e de patrocinadores para pagar salários. (Fontes: jornais Hoje em Dia, O Estado de Minas e O Tempo).

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