Política

Após morte de policial na Bahia, deputados bolsonaristas usam redes para incitar motins

Após a morte do policial Wesley Soares, que, armado com um fuzil, atirou contra colegas e fez disparos para o alto em Salvador, na Bahia, parlamentares que apoiam o governo compartilharam mensagens nas redes sociais incitando motim nas corporações militares nos estados. Wesley foi atingido por disparos após mais de três horas de negociação durante um surto psicótico. 

A deputada federal Bia Kicis chegou a publicar uma mensagem de incentivo à greve, mas apagou.

Nesta segunda-feira (28), diversos parlamentares bolsonaristas publicaram mensagens alegando que o PM se insurgiu contra restrições ao comércio aplicadas pelos governadores e apoiando ações semelhantes. A deputada federal Bia Kicis, presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara (CCJ), chegou a publicar uma mensagem com o mesmo teor, mas apagou em seguida. “Nesta madrugada fui informada, de que o PM morto, em surto, havia atirado para o alto e foi baleado por colegas. As redes se comoveram e eu também. Hoje cedo removi o post para aguardarmos as investigações. Inclusive diante do reconhecimento da fundamental hierarquia militar”, escreveu a parlamentar.

Antes disso, a deputada tinha escrito: “Soldado da PM da Bahia abatido por seus companheiros. Morreu porque se recusou a prender trabalhadores. Disse não às ordens ilegais do governador Rui Costa da Bahia”. A mensagem deletada seguia com os dizeres “esse soldado é um herói. Agora a PM da Bahia arou. Chega de cumprir ordem ilegal!”.

Na Bahia, na hora em que ocorriam as negociações com o PM, o deputado estadual Soldado Prisco (PSC) fazia uma live nas redes sociais falando sobre eventuais problemas durante a atividade policial. Em seguida, ele convocou protestos em relação ao caso e em um vídeo que circula na internet, ele aparece ao lado de vários homens, que seriam policiais da ativa e aposentados, convocando manifestações, dizendo “tem muitos Wesleys na polícia militar” e acusou os negociadores do Bope de não terem intenção de evitar confronto – ainda que a neutralização tenha ocorrido apenas após o soldado disparar contra os agentes no local. Entre os vários vídeos postados desde a noite de domingo, Prisco aparece questionando até quando os policiais vão aceitar “isso” e dispara: “a hora de parar é agora, eu convoco vocês”.

Outros deputados federais também aproveitaram para comentar o caso, em tom de cobrança por ações. A deputada Karla Zambelli postou um vídeo com texto e imagens motivando atos como o de Wesley. “Eu não vou deixar, não vou permitir, que violem a dignidade humana de um trabalhador”, diz um trecho da mensagem. O texto logo abaixo tem uma frase motivacional. “Sempre é hora de fazer o que é certo”, completa a imagem, com a foto do PM baleado.

Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, afirmou que o ato do PM é um protesto contra o “sistema” e disse que “estão brincando com a democracia”. O assunto é um dos mais comentados das redes sociais. “Aos vocacionados em combater o crime, prender trabalhador é a maior punição. Esse sistema ditatorial vai mudar. Protestos pipocam pelo mundo e a imprensa já não consegue abafar. Estão brincando de democracia achando que o povo é otário”, escreveu o deputado.

Surto

Durante a ação que terminou em sua morte, Wesley Soares se colocou, em carro particular e com o rosto pintado de verde e amarelo, em frente ao Farol da Barra, em Salvador. Ele jogou bicicletas e alambrados no mar e fez diversos disparos para o alto, enquanto gritava palavras de ordem. O Batalhão de Operações Especiais (Bope) fez uma barricada e isolou a área. No entanto, durante as negociações, Wesley disparou contra colegas, o que gerou reação e ele foi atingido por diversos tiros. Socorrido ao Hospital Geral do Estado, na noite de domingo, ele não resistiu aos ferimentos e morreu.

Um texto da Associação Nacional das Entidades Representativas de Policiais Militares e Bombeiros Militares e Pensionistas do Brasil afirmou que vem alertando sobre estresse e esgotamento físico e psicológico nos policiais, que se intensificaram durante a pandemia de covid-19. “Mais uma vez, alertamos o Conselho de Comandantes Gerais-CNCG, Ministério da Justiça, Congresso Nacional, Comissão Nacional dos direitos Humanos e Presidente da República, que as tropas dos militares estaduais estão cansadas, sobrecarregadas, psicologicamente abalados com a carga estressante de atividades operacionais à exaustão, ocasionando distúrbios, insônia, ansiedade e angústia”, destaca um trecho do texto.

Em nota, a Polícia Militar da Bahia lamentou a morte do policial. 

Oposição

 A oposição reagiu as declarações dos parlamentares da base do Executivo no Congresso. A deputada Jandira Feghali (PCdoB), declarou que as falas são de ampla gravidade, e que o PM em surto fez diversos disparos em via pública. “Grave! Bolsonaristas e parlamentares incitam motim na Bahia contra isolamento e lockdown após o PM em surto que atirava pesadamente em ponto turístico ser imobilizado pelos colegas de farda. Vídeo comprova ele atirando muito. Ameaça à Segurança Nacional tem que ser denunciada”, disse.

Marcelo Freixo (Psol) afirmou que Bia Kicis usa o cargo para incitar a violência. “A extremista Bia Kicis, presidente da CCJ, que já discursou a favor da intervenção militar dentro do parlamento, agora estimula um motim da PM na Bahia. Mais uma vez utiliza o cargo para pregar a violência contra o Estado de Direito e a Democracia. É um crime contra a Constituição”, publicou nas redes sociais.

To Top
%d blogueiros gostam disto: