Política

CPI da Covid: Collor diz que Bolsonaro “corre riscos” e poderá ficar em “situação difícil”

Pouco mais de 28 anos depois de sofrer um impeachment e deixar a Presidência da República, acusado por uma CPI de se beneficiar de um esquema de corrupção em seu governo, o senador Fernando Collor (Pros-AL) se preocupa, com base na experiência própria, com as repercussões políticas da crise provocada pela pandemia da Covid-19 no país.

Collor diz que caberia a Bolsonaro unir as diversas vertentes para conduzir pandemia

Em entrevista ao Correio, o senador avalia que o presidente Jair Bolsonaro “corre riscos” e poderá ficar em “uma situação extremamente difícil” com a instalação da CPI do Senado. Apesar de aliado de Bolsonaro, Collor afirma que o presidente falhou ao deixar de coordenar as ações de combate ao novo coronavírus. “Caberia a ele, como líder político da nação, unir as diversas vertentes políticas e ideológicas para, juntos, encontrarem um caminho que pudesse ser percorrido por todos no combate à covid-19”, avalia Collor. A seguir, os principais trechos da entrevista:

O senhor tem se posicionado contra a instalação de uma CPI em plena pandemia. E em algum outro momento, o senhor seria favorável à CPI?
Sim. Eu me posiciono contra a instalação da CPI neste momento. Não acredito ser esta a oportunidade para se criar uma CPI, quando estamos no meio do maior pico de infectados e de óbitos. A instalação de uma CPI agora vai confundir as ações num momento em que, ao invés de confundirmos as ações, devemos unir os atores dos Poderes constituídos para combatermos, juntos com a sociedade civil, essa pandemia. Neste momento, devemos concentrar nossos esforços e nossas energias no combate à covid-19, e esse combate significa ter vacina, vacinação para a população, vacina, vacina e mais vacina, imunizar a população brasileira. É disso que estamos precisando. Qualquer atitude que venha a turbar esse ambiente de união deve ser considerada não producente.

Onde o Brasil errou no combate à pandemia?
O Brasil errou no momento em que o presidente da República não assumiu a coordenação geral do combate à pandemia. O presidente, agora, tem que correr atrás do tempo perdido. Foi um tempo perdido em função das discussões entre o Poder Executivo federal e os governadores, que atrapalhou bastante o processo de se achar uma ação conjunta para o combate ao covid. Entendo que, agora, o presidente esteja se movimentando no sentido, como eu disse, de recuperar o tempo perdido e se dedicar, agora, intensamente, a promover essa união entre o Executivo federal e os executivos estaduais e municipais e, mais ainda, com a comunidade científica e acadêmica. Atrapalhou bastante o fato de o presidente da República não ter assumido, desde o início, a coordenação geral desse processo, já que (a pandemia) é um inimigo comum à toda sociedade brasileira e planetária. Caberia a ele, como líder político da nação, unir as diversas vertentes políticas e ideológicas para, juntos, encontrarem um caminho que pudesse ser percorrido por todos no combate à covid-19.

Na sua opinião, então, o presidente optou por não liderar o país nesse momento difícil…
Se ele falhou nesse sentido, não sei se foi por vontade própria. Às vezes as pessoas claudicam sem, necessariamente, ter a intenção de fazê-lo. O fato é que as ações que o presidente empreendeu não se coordenaram com o papel que cabe a ele, como um líder político da nação, num momento de calamidade, assumir, de fato, o comando desse combate. Ele deve ser o grande comandante e, portanto, o responsável por unir todas as forças disponíveis para que possamos ter sucesso nessa luta.

Quais devem ser as prioridades da comissão?
CPI é algo que nós todos sabemos como inicia e não sabemos como vai terminar. Essa não será diferente das outras. Então, o objeto definido é para analisar as falhas havidas no combate ao covid. Mas essa CPI vai se transformar em uma CPI contra a figura do presidente da República. Não tenho a menor dúvida de que isso chegará a este objetivo final, e, no que diz respeito aos desvios havidos na remessa de recursos para estados e municípios, isso vai ficar num segundo plano. No primeiro plano vai se querer atingir, pelo que eu tenho como experiência, a figura do presidente da República. E isso não é bom, porque se atingir a figura do presidente, no primeiro momento, é atingir a figura daquele que ainda pode assumir o comando que somente a ele cabe no combate ao covid. E enfraquecer o poder do presidente da República é enfraquecer as forças vitais de que dispomos para podemos opor um combate à covid-19. Sem dúvida nenhuma, a intenção velada, ao proporem a CPI, é atingir o presidente da República.

As investigações representam riscos ao mandato do presidente Jair Bolsonaro?
Se o objetivo velado da proposição da CPI é o de atingir o presidente da República, no meu entender, claro que ele corre risco. Porque, dependendo da intensidade com que ele seja atingido, naturalmente o deixará numa situação extremamente difícil.

Bolsonaro atacou o Supremo após o ministro Barroso determinar a instalação da CPI. Como avalia a reação do presidente?
É necessária a união dos Poderes constituídos. Venho me batendo sempre nisso. É fundamental que os Poderes constituídos, a base da nossa democracia, convivam harmonicamente e independentes entre si. Aqui e acolá houve entreveros entre integrantes do Executivo e integrantes do Judiciário, e membros do Congresso. Isso faz parte do jogo político, mas não na intensidade na qual nós estamos vivenciando.

O que tem impedido a harmonia entre os Poderes?
Isso [a harmonia]não vem ocorrendo em função de declarações que são dadas de dentro do Poder Legislativo, do Poder Executivo, dentro de ações do Supremo Tribunal Federal, por exemplo, com essa ação tomada monocraticamente por um ministro do Supremo [de instalação da CPI], interferindo em uma questão interna corporis do Senado. Ele poderia simplesmente dizer ‘sim, é constitucional a instalação da CPI, cabe ao Senado resolver essa questão’. Se isso fosse feito dessa maneira, não teria causado esse estremecimento. Por mais que nós queiramos colocar panos quentes em cima, remanesce essa inquietação.(Jorge Vasconcellos/Correio Braziliense)..

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