História

Dois de Julho reapropriado e com corneteiros Lopes sobrando

Dois de Julho reapropriado e com corneteiros Lopes sobrando Foto: Francis Juliano/ Bahia Notícias

Ah, o Dois de Julho. Símbolo da libertação do Brasil de Portugal acabou equivocadamente apropriado por defensores do governo de Jair Bolsonaro, que carrearam pelas ruas de Salvador bradando pela “independência real” de um país fictício em que muitos deles insistem em viver. Só nos tempos modernos que o povo se digna a defender um governo pouco defensável. Porém são custos da democracia – algo que muitos sequer valorizam.

O final de semana do segundo ano consecutivo sem o povo nas ruas para celebrar o Dois de Julho foi marcado também por outro brado de independência, dessa vez do lado oposto, pedindo o impeachment de Bolsonaro. Fôssemos um país levado a sério, não seria preciso protestar contra um gestor público que vestiu uma roupa de sereia e levou desavisados (ou simplesmente senhores dos próprios umbigos) a um naufrágio palpável. Além da capital baiana, outras cidades do Brasil contrariaram as recomendações sanitárias e se aglomeraram para parecer menos amorfas do que a população que segue inerte a tantos despautérios explícitos das figuras públicas que comandam a nação.

Esses movimentos lembram as mobilizações de junho de 2013 e seus 20 centavos. E também as de 2016, quando alguns ainda acreditavam que boas intenções moviam o Brasil. Sempre com dois lados díspares, que insistem que suas próprias verdades são absolutas e que o outro está errado. Foi-se o tempo em que dialogar era parte do nosso processo civilizatório. Agora, com a guerrilha virtual, hashtags e trending topics valem mais do que um dólar de propina para cada dose de vacinas. O conto do vigário que os brasileiros insistem em acreditar foi levado ao extremo, dentro do Ministério da Saúde, com um vigarista tentando aplicar golpes em golpistas. Tudo bem brasileiro, convenhamos. Enquanto isso, a escalada de mortes por Covid-19 dá sinais de retração, pelo curso natural da pandemia, pela chegada homeopática de vacinas e pelo descrédito de que o poder central do Brasil tentou, de fato, fazer algo contra o coronavírus.

Foram tantas vidas perdidas pelo nosso próprio descaso que já não temos mais lágrimas ou reações. É como se nos apropriássemos do espírito de Joana Angélica que tentou barrar um exército com o próprio corpo, mesmo sabendo que a morte era certa. Talvez ainda tenhamos reprimido o desejo de sermos como Maria Quitéria ou Maria Felipa, que usaram o que lhe era disponível para efetivamente entrar para a história – ainda que haja certo apagamento da segunda. Nessa fase da pandemia, com tantas boas intenções disfarçando mobilizações políticas (partidárias), o que nos resta são corneteiros Lopes, querendo avançar quando devíamos recuar. Ah, que saudade do Dois de Julho.

(Fonte: Bahia Notícias)

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